Ricardo Araújo em entrevista: “As Gualterianas devem crescer sem deixarem de ser nossas”
As Festas da Cidade e Gualterianas regressam entre 24 de julho e 3 de agosto e marcam um momento simbólico para Ricardo Araújo. É a primeira vez que vive a principal celebração vimaranense na qualidade de presidente da Câmara Municipal.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
À Mais Guimarães, o autarca fala da valorização das tradições, da estratégia para afirmar Guimarães como destino cultural, do papel dos grandes eventos na economia local e da nova orientação para a política cultural do concelho. Defende uma cidade “mais aberta, mais participativa e mais dinâmica”, sem perder a identidade que distingue Guimarães.
Estas são as suas primeiras Gualterianas como presidente da Câmara. Que significado têm para si estas festas e que marca pretende deixar nesta primeira edição nessas funções?
As Gualterianas não pertencem a um presidente nem a um executivo. Pertencem a Guimarães e aos vimaranenses. A minha responsabilidade, nesta primeira edição enquanto presidente da Câmara, é garantir que o Município está à altura de preservar e valorizar uma festa que nos diferencia e que foi construída, preservada e renovada ao longo de gerações.
A edição de 2026 tem um significado muito especial por assinalar os 120 anos da Marcha Gualteriana. Mantemos tudo aquilo que faz destas festas um momento único, a Feira de Gado, a Feira de Artesanato, os bombos, os cantares ao desafio, o folclore, o fado, as concertinas, as charretes, as pasteleiras, a Procissão de São Gualter e, naturalmente, a Marcha Gualteriana, e acrescentamos quatro grandes concertos no Toural, além da recuperação da Corrida de Cavalos.
Queremos dar mais dimensão às festas, envolver mais pessoas, atrair visitantes e criar mais movimento na economia local, mas sem nunca retirar protagonismo às associações, aos artesãos e aos obreiros que fazem das Gualterianas aquilo que elas são. As festas podem crescer, mas devem continuar a ser genuinamente nossas.
Tem afirmado que “a cultura de gosto chegou ao fim” em Guimarães. O que significa exatamente essa mudança de paradigma?
Significa que a política cultural não pode depender do gosto pessoal de quem governa ou de quem programa. O dinheiro público deve servir o interesse público e garantir diversidade, qualidade e acesso para todos.

© CMG
Guimarães deve continuar a apostar na arte contemporânea, no teatro, na dança e na criação artística, mas também deve valorizar o fado, o folclore, as bandas filarmónicas, a música popular, o hip-hop e as manifestações culturais que mobilizam diferentes públicos.
Não aceito que existam públicos culturalmente superiores a outros. A obrigação do Município é criar oportunidades para todos, mantendo elevados padrões de qualidade e fazendo dos equipamentos culturais espaços verdadeiramente abertos à comunidade.
O Município tem apostado fortemente em grandes eventos. Esta é uma estratégia para afirmar Guimarães culturalmente e também para dinamizar a economia local?
Sem dúvida. Um grande evento cultural gera impacto muito para além da cultura. Atrai visitantes, aumenta a procura na hotelaria e na restauração, dinamiza o comércio e cria oportunidades para empresas e profissionais locais.
Mas essa estratégia não vive apenas dos grandes momentos. Queremos um calendário cultural ativo durante todo o ano. Os grandes eventos devem funcionar como momentos de maior projeção dentro de uma programação contínua e diversificada.
Foi essa lógica que esteve presente no regresso do Guimarães Veste Branco. Pretendemos devolver o espaço público às pessoas, envolver as associações, o comércio e as instituições e reforçar a atratividade da cidade.
No fundo, cada evento deve produzir três resultados: retorno cultural, porque oferece qualidade; retorno cívico, porque promove participação; e retorno económico, porque gera riqueza para quem trabalha e investe em Guimarães.
“Cada evento municipal deve produzir três retornos: cultural, cívico e económico”
Tem dito que “Guimarães está de novo na moda”. Como garantir que esse crescimento não compromete a identidade da cidade?
Estar na moda não significa perder identidade. Pelo contrário. Guimarães desperta interesse precisamente porque mantém uma personalidade própria, construída pela sua história, pelo património, pelas tradições e pela forma como os vimaranenses vivem a cidade.

© CMG
As Gualterianas são um excelente exemplo desse equilíbrio. Conseguimos juntar grandes espetáculos contemporâneos às manifestações tradicionais que fazem parte da nossa identidade.
Ao mesmo tempo, temos de assegurar uma gestão responsável dos grandes eventos, protegendo o património, garantindo mobilidade, limpeza, segurança e respeito pelos moradores.
O objetivo não é transformar Guimarães num cenário para turistas, mas numa cidade que continua a ser vivida por quem cá reside e, simultaneamente, acolhe bem quem nos visita.
Que papel atribui à A Oficina na concretização da nova política cultural do Município?
A Oficina continua a ser um parceiro fundamental da política cultural do Município. Gere equipamentos de enorme importância, organiza festivais estruturantes e tem um papel decisivo nas Festas da Cidade e Gualterianas.
Mas importa clarificar que a política cultural é definida democraticamente pelo executivo municipal. Cabe à Câmara estabelecer prioridades e objetivos; cabe à A Oficina concretizá-los com competência técnica, autonomia artística e responsabilidade.
Queremos uma instituição mais próxima da comunidade, que estabeleça pontes entre os equipamentos culturais e os cidadãos, entre os artistas e o movimento associativo, entre a criação contemporânea e o património popular.
O prestígio artístico é importante, mas não chega. O verdadeiro sucesso mede-se pela capacidade de atrair novos públicos, apoiar os criadores locais e fazer com que mais vimaranenses sintam que aqueles espaços culturais também lhes pertencem.
“As Gualterianas são a maior expressão da identidade vimaranense e queremos que continuem a crescer sem perderem a sua alma”
Que mensagem deixa aos vimaranenses e a quem visita Guimarães nesta edição?
Convido todos a viverem intensamente as Festas da Cidade. Os vimaranenses sabem que as Gualterianas são muito mais do que um programa de espetáculos. São um património coletivo, uma celebração da nossa identidade e um momento de encontro entre gerações.

© CMG
A quem nos visita, digo que encontrará uma cidade autêntica, acolhedora e orgulhosa das suas tradições. Encontrará uma festa que soube evoluir sem perder a sua essência.
É precisamente esse equilíbrio entre tradição e modernidade que queremos continuar a afirmar. Porque as Gualterianas são, antes de tudo, a expressão maior da alma de Guimarães.





