Rui Dias | A irresistível tentação de censurar

Artigo de opinião. “¿Por qué no te callas?”, atirou Juan Carlos I de Espanha ao protoditador venezuelano Hugo Chávez, na Cimeira Ibero-Americana, que se realizou em Santiago do Chile, em novembro de 2007.

@ Rui Dias

O rei sentiu uma necessidade irreprimível de calar Hugo Chávez e quebrou o protocolo. Hugo Chávez por seu turno tinha cedido à vontade de sobrepor a sua voz à do chefe do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que defendia o ex-primeiro ministro espanhol José María Aznar, a quem o chefe de Estado da Venezuela tinha chamado “fascista”. O episódio gerou um belo “meme” que, ainda hoje, circula pelas redes sociais.

O apetite por calar aqueles que exprimem ideias diferentes é algo muito humano e só pode ser contido com educação (democrática) e disciplina. Vem isto a propósito da invasão dos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), no passado dia 12, pelas deputadas do Chega Rita Matias e Madalena Cordeiro, acompanhadas por outros membros do partido. E que relevância é que este assunto tem para o leitor de Guimarães em particular? Peço um pouco mais de paciência ao leitor e prometo que vou explicar.

Os estudantes da Associação Académica da Universidade de Coimbra (AAC), em Assembleia Magna (AM), deliberaram proibir a participação do Chega nos seus eventos e barrar-lhe a entrada nas suas instalações. Tenho dúvidas sobre a legalidade de uma associação de estudantes, com estatuto de utilidade pública, proibir os elementos de um partido legalmente constituído de entrar nas suas instalações, mas deixo isso para os juristas. O que a mim me interessa é a parte em que essa decisão afeta o funcionamento de um órgão de comunicação social, a RUC, que ao sujeitar-se à proibição aprovada pela AM, fica impedida de receber nos estúdios, para os seus programas de debate, entrevista ou comentário, políticos do Chega.

Aos jornalistas da RUC, não restava outra hipótese senão insurgirem-se contra esta medida, logo quando ela foi aprovada, porque constitui um ato de censura com o qual nenhum jornalista pode pactuar. A tentativa de conviver com a proibição aprovada pela AM e, ainda assim, fazer um jornalismo sério, ouvindo todas as partes, redundou na abertura de uma oportunidade para as deputadas do Chega se vitimizarem. Por muito que se esforcem agora por censurar Rita Matias e Madalena Cordeiro por terem invadido as instalações de um órgão de comunicação, o que o povo vê é um partido que foi impedido de aceder ao discurso nos mesmos termos dos outros e que se impôs. No final do dia, são mais uns votos a somar para o Chega.

Em tempos fui convidado para moderar um debate na sede de uma associação vimaranense, em que estavam representados todos os partidos menos o Chega. Fiz questão de dar nota à audiência de que essa não era uma decisão minha e que não estava de acordo com ela. Num debate seguinte, a organização teve a amabilidade de voltar a convidar-me, todavia, exigiu-me que não fizesse considerações sobre o Chega não ser convidado. Declinei o convite, uma vez que interpretei a atitude como um duplo ato de censura, primeiro ao partido Chega e depois a mim como jornalista com carteira profissional ativa nesse momento.

Discordando profundamente do Chega e da ação, próxima do revolucionário, que implica a invasão de uma rádio, vejo nisso um problema menor do que a possibilidade de se instalar a censura, ainda que por caminhos ínvios. Há uma franja da esquerda que, perante a impossibilidade de convencer o “povo ignaro” a votar nas suas ideias pelas regras da democracia liberal, desliza muito rapidamente para a democracia popular.

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