Sermão de Santo António (1654)

Por Eliseu Sampaio,
Diretor do Grupo de Comunicação Mais Guimarães

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (…) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (…) Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (…)

Conhecido como “O Sermão dos Peixes”, nele o padre António Vieira (1651-1725) usa a imagem dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu poder, defendendo-os e condenando os horrores vivenciados por eles nas mãos de colonos e os cristãos-novos. Inspirado em Santo António de Lisboa, conhecido como defensor dos pobres, António Vieira critica nas linhas que escreve as virtudes mas também os vícios dos colonizadores. É agora, apesar de imaginarmos todos os erros cometidos à época (tidos no nosso tempo, num outro tempo, como comportamentos inaceitáveis), um exemplo como defensor da humanidade nas relações entre os homens.

A sua estátua em Lisboa foi esta semana vandalizada com a inscrição da palavra “descoloniza” pintada a vermelho.

Como definir evolução quando não aceitamos o passado? Como alcançamos futuro? Serão dias novos alicerçados em quê?

Boa semana.

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?