SÓCRATES GATE

por ÂNGELA OLIVEIRA

Advogada

 

Se Sócrates se desfilia ou não do Partido Socialista só a ele, e ao Partido Socialista, deveria interessar. E se várias figuras importantes do PS de repente o tratam como kriptonite só ao PS deveria interessar, e o resto do mundo não socialista assistiria à novela impondo-se o distanciamento que nestas coisas o costume impõe – a vida partidária apenas interessa aos militantes…Errado. Mil vezes errado. Quiséramos nós que assim fosse.

Se à Justiça o que é da Justiça, e à Política o que é da Política, esta máxima não foi respeitada pelos socialistas e José Sócrates foi tratado como mártir socialista, perseguido por garras fascistas justiceiras de quem só o queria ganhar eleições. Uma procissão de figuras de proa do partido, quais vassalos da corte, tristes e órfãos de líder, rumaram a Évora, deram entrevistas à porta da prisão, nas estações de televisão, escreveram artigos de opinião, inundaram as redes sociais. O partido, como sempre, falou a uma só voz. Sócrates é nosso. Estamos contigo camarada. Cante-se um hino. E cantou-se.

Ao resto do Mundo o PS exigia polidez no tratamento do assunto. “À Justiça o que é da Justiça, e à Politica o que é da Politica”. E o Mundo assim fez. Com muita vergonha, o Mundo assistiu ao processo “ Freeport” em que também esteve envolvido o nome de José Sócrates; ao processo Casa Pia, aquando da detenção de Paulo Pedroso, ouvindo António Costa e Ferro Rodrigues em escutas telefónicas, dizendo o primeiro coisas como “ Eh pá, o problema é que isso já está nas mãos do juiz” e o segundo uma fina “ tou-me cagando para o segredo de justiça”; ao processo “ Face Oculta” com Vara como protagonista, ao processo “ Cova da Beira”,… com muita vergonha o Mundo duvidou das habilitações académicas de Sócrates, da autoria do seu livro… e foi com tanta vergonha que o Mundo assistiu a tudo isto que quando o ex-Primeiro Ministro foi detido o Mundo não estranhou. O Mundo, não o PS. O PS não sentiu vergonha de nada. O PS estranhou. Para o PS era a cabala.

De repente a vergonha. Outros casos mediáticos da justiça ligados a ex-governantes do tempo de Sócrates, como Manuel Pinho, deram o mote e eis que uma súbita e insustentável vergonha iluminou estes seres puros, impolutos, Gandhis do século XXI. Carlos César, de quem todos conhecemos a família, mostra-se enraivecido com pessoas que se aproveitam dos partidos (ler o que o senhor disse chega a provocar agonia); Galamba…enfim, é ver os antigos posts do Twitter do senhor, fica (agora?) envergonhado, diz ele como “qualquer socialista” por ver ex-dirigentes socialistas acusados de corrupção e branqueamento de capitais e António Costa, que afinal já pode comentar casos da justiça que envergonham a Democracia…

A sério? A sério que casos de corrupção e branqueamento de capitais praticados por políticos, ex-dirigentes partidários, ex-ministros envergonham a Democracia? Sr. Primeiro Ministro, contenha-se lá, afinal, lembre-se do seu sms “ À justiça o que é da justiça e à politica o que é da política”.

E eis que, ao contrário do que pensávamos, não estávamos a assistir à novela mas sim a um pensado e estratégico jogo de xadrez, um a um, os movimentos foram-se sucedendo, o Rei é encurralado e entrega o cartão da rosa. Xeque-mate. Agora vamos lá às eleições de 2019.

 

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