Uma cidade nova

Por Francisco Teixeira

O que mais me impressiona, de modo gráfico, na “Planta do Projeto Geral de Melhoramentos” de Luís de Pina (era Presidente da Câmara de Guimarães Mariano Felgueiras, em 1925) são os limites oeste da Cidade, confinada, de modo cortante, pela Rua Paio Galvão, que se estendia desde a Praça D. Afonso Henrique/Toural até à ponte de Santa Luzia, mais ou menos onde ficam, hoje, a PSP e os BVG.

O limite oeste da cidade era delimitado, então, pela Igreja de S. Pedro, atrás desta pelas Dominicas, a seguir pelo Convento e Igreja de S. Domingos, e pela então recente sede da SMS, e depois pelo mercado municipal, ainda sem o desenho de Marques da Silva. Mais para oeste o desenho não alcança. Esboça-se a Rua de Camões, a Rua D. João I e, onde hoje identificamos a Avenida Conde de Margaride, logo avistamos a indicação “Braga”. A cidade acabava aí.

A cidade nova de Luís de Pina ficava do lado oposto, a leste, com uma nova praça centralizando e organizando toda a cidade desconhecida e a inventar: a Praça Municipal, para onde Marques da Silva tinha desenhado os novos Paços do Concelho (que ficaram mais ou menos a meio e onde, mais tarde, se construiu o atual Palácio da Justiça) e uma reticula ortogonal em pata de ganso que irradiava desde o centro administrativo até Vila Pouca, à Quinta do Rio (ambas ainda existentes, mesmo que sob outras formas), envolvendo todo o atual Parque da Cidade e a conturbada Urbanização de Margaride, até quase à atual sede do Vitória, já a caminho de Fafe.

Na verdade aquele desenho está lá. Não, certamente, de modo tão ortogonal e elegante como o imaginou Luís de Pina, que a realidade é cruel. Mas está lá.

Mas, para oeste, não temos nada. A oeste a cidade acabava, grosso modo, no mercado e no Toural, este transformado em praça secundária da nova praça verdadeiramente articuladora (a articular) da cidade: a Praça Municipal, hoje a Mumadona, solitária.

Para lá do Toural, a oeste e a norte só tínhamos espaços agrícolas, sem distinção daquilo que é hoje a Veiga de Creixomil e a entrada urbaníssima da Cidade. A sudeste a coisa não era muito diferente. Tirando couros, o limite externo de uma cidade da industrialização tardia, não existiam senão subúrbios agrícolas e, lá no alto, sobretudo, a Fábrica do Castanheiro, para a qual concorriam outras indústrias mais pequenas, mais ou menos subsidiárias daquela, mas em crescimento mais ou menos acelerado, calcorreando o Couros ou o Selho.

Aquele oeste cego e não visto eram os quarteirões que vão hoje da Avenida Conde de Margaride à Avenida D. João IV e foram-se compondo, conforme o século ia crescendo, numa mistura heteróclita de campos agrícolas, pequenas e médias indústrias e habitações à escala de metade do tamanho necessário para as famílias numerosas e semiproletarizadas, ainda a viver, em grande parte, do que o campo lhes dava, ou a viver com quase nada. A industrialização acelerou até aos anos 60 mas, chegados aí (ou ligeiramente mais tarde), as fábricas dos limites externos da cidade (do Toural para oeste) foram-se de vez para a falência, a desindustrialização ou, transmutando-se, para os parques industriais dispersos pelo Ave.

Entretanto, entre as avenidas, a Conde Margaride e D. João IV, a cidade jazia mais ou menos abandonada, reerguendo-se timidamente com a sua incipiente transformação museológica e científica. Não foi e não é mau. Mas foi pouco e as feridas continuavam à vista, com silvados e ruínas industriais levemente distópicas, ruas e casas antigas ainda abandonadas (e agora em recuperação). Por isso é que o projeto de recuperação e invenção urbana cruzando a Caldeiroa e a Av. Afonso Henriques, até aos limites da D. João IV e do Monte Cavalinho constituem uma quase cidade nova e, sem exagero, um verdadeiro feito urbanístico, o maior feito do mandato de Domingos Bragança e, imagino, do seu Vereador do Urbanismo, o arquiteto Seara de Sá. Há aqui, pela primeira vez de há muitos anos, desde quase há um século, uma cidade nova. E isso não é coisa pouca. Que seja para todos.

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