VIMAREXIT

por MARCOS BARBOSA

Uma organização semi-clandestina vimaranense denominada “Filhos do Cotão” fez circular nos meios mais subversivos da cidade um folheto incendiário e incendiável, onde por entre uma prosa saudosista da bravura afonsina, e a saudade da abundância industrial do nosso Vale do Ave, se enumeravam as vantagens da saída de Guimarães da República Portuguesa, e um regresso, ou na opinião destes subversivos ideólogos, um avanço para o conceito de cidade-estado.

Este folheto que foi recebido de forma geral como uma graça, própria de alguns adolescentes mais atrevidos, ou alguns adultos menos maduros, deu azo a várias discussões durante vários dias, tendo mesmo, motivado altercações entre amigos de longa data. Curiosamente, dado que as trocas de impressões foram todas efectuadas na nossa cidade, todos os oradores concordavam sempre nas características impares da nossa urbe. Ou seja, este folheto inofensivo, pelo grau de improbabilidade do seu fim, e pela pouca dimensão mediática do alcance que um pequeno pedaço de papel fotocopiado poderá ter, aparentemente tocou numa ferida que neste meu pequeno escrito pretendo reavivar.

Indo direto ao assunto: Guimarães deve começar desde já um processo de cessação do estado português. Creio que não necessitamos sequer de um referendo, e evitamos assim uma ilegalidade de uma votação que não será certamente apoiada pelo governo de Portugal,  e devemos desde já avançar para a separação completa do nosso pequeno território. Que outra forma temos para defender esta identidade única do ser vimaranense? Esta ideia de comunidade, de sentimento de pertença a um território que não tem par no resto deste pedaço de terra desgraçada a que chamamos Portugal? Não quero desmerecer a honra e a feroz coragem de Afonso conquistando território península abaixo, mas não duvido que hoje fosse o nosso Rei, primeiro e último, vivo, não encontraria melhor fim para as terras que vão desde o Porto até ao Algarve, que não fosse o sazonal cultivo e a ténue pastagem.

Somos nesta nossa cidade portadores de um segredo, um tesouro que nos foi deixado chamado identidade. Nesta proposta, que faço hoje aos meus concidadãos, não proponho sequer a ideia de isolamento. Claro que continuaremos a efectuar as trocas necessárias à subsistência e sobrevivência de todos, não sendo necessária qualquer alteração substancial na vida dos vimaranenses. Trata-se sobretudo de uma alteração profunda dos termos da nossa relação com Lisboa, por um lado, e com Bruxelas por outro.  Se quisermos gracejar, talvez menos alfaces e mais couves-de-bruxelas. Penso também, para aqueles que professam a fé católica, que a relação directa com o Vaticano será vista com maior agrado, do que a relação actual, mediada por um aglomerado habitacional de construção caótica, que serve de referencia nos manuais do que não-fazer no urbanismo contemporâneo.

Olhando com frieza para a realidade pura e dura do mundo neoliberal e hiper capitalista que nos denomina, fazer parte de um país é um acto simbólico.

Ora de símbolos percebemos nós. Guimarães cidade-estado, regida desde dentro, na tradição do seu Rei fundador, escudado por seus sábios fazedores do século XIX, independente de um Portugal demasiado dependente de outros interesses e de outros símbolos, é o desafio que lhes deixo.

Uma cidade-estado dentro de uma Europa de outras cidades semelhantes, que vêem na cultura, no seu equilíbrio ecológico, e na qualidade de vida dos seus cidadãos, os que cã estão, e os que vão chegando, a ideia de um futuro próspero.

Guimarães rebela-te, pela tua felicidade – nossa cidade. Vimarexit, já.

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