VITÓRIA, CEM ANOS DE ORGULHO

Por César Machado.

Não posso reivindicar o estatuto de Vimaranense por ter nascido aqui. Mas julgo poder fazê-lo por ter escolhido Guimarães para aqui viver, integrado na cidade, constituir a minha família, ter aqui os meus três filhos, e um dia, para cá ficar para sempre. Cito de memória uma entrevista notável do Sr. Ernesto Paraíso, valoroso jogador do Vitória Sport Clube das décadas de 1950 e 1960. Recordo-me de ler estas palavras quando jovem e do orgulho que então senti. O Sr. Ernesto Paraíso era um “gentleman”, um senhor, que manteve sempre uma postura e elegância irrepreensíveis como cidadão desta nossa terra. Podem recordar-se outros futebolistas que vieram para Guimarães, que aqui fizeram as suas carreiras desportivas e as suas vidas, integrados na cidade, como Vimaranenses que são, ou foram, estando muitos na nossa saudosa memória. Entre os que vieram como futebolistas e por cá ficaram, assim, sem consulta livresca, ocorrem os nomes dos Senhores Daniel Barreto, Bártolo, Rola, Edmur, Roldão, Garcia, António Peres, Rodrigues, Manuel Pinto, Roldão, Osvaldinho, Tito, Ferreira da Costa, Mundinho, Pedroto, Tozé, Neno, Palatsi, Flávio Meireles, entre outros que poderão estar a escapar e por cuja omissão peço desculpa.

Poderá dizer-se que provavelmente sucederá o mesmo noutros clubes, noutras cidades, virem jogadores de futebol de outras paragens, nacionais ou estrangeiras, e ali ficarem depois de terminada a carreira desportiva. Talvez não seja bem assim. Há largos anos, “A Bola” publicou uma reportagem cujo tema era justamente essa coisa da especial ligação entre Guimarães e o Vitória, focando a relação que se mantinha para lá da vida desportiva de muitos jogadores que por cá ficavam com a sua vida organizada, apontando para o inusitado número de casos, muito mais que noutros clubes e cidades da nossa dimensão. Entrevistavam vários ex-futebolistas, salientando quanto era diferente do que verificava noutros clubes, tudo para concluir ser Guimarães e o Vitória um caso à parte. Dos entrevistados havia unanimidade num sentimento:- sentiam-se em casa.

É mais que óbvio que os jogadores aqui nascidos e criados estão no coração dos vimaranenses, como não podia deixar de ser. Mas estão, de igual modo, os casos citados, de Vimaranenses por força do Vitória, que aqui ficaram, estando, uns e outros no coração da comunidade vimaranense. Não é difícil perceber porquê. É que no coração dos vimaranenses está o Vitória. Como está Guimarães. E quem faz bem ao Vitória ou a Guimarães tem a gratidão e o reconhecimento perene da comunidade, sem distinção entre aqui quem nasceu ou veio para cá.

Não é seguro que os outros nos percebam muito bem. Não raro dizem que somos “diferentes”. Pois somos. Os exemplos acabados de citar, o modo como tantos Vimaranenses por força do Vitória são acarinhados em Guimarães e aqui se sentem em casa são parte do nosso património que vale por muitos “títulos”. Uma massa associativa que grita “Vitória até morrer” ao acabar de descer de divisão e que aumenta o número de associados logo de seguida, que transforma a tempestade chuvosa do Estádio do Jamor numa esplendorosa tarde, garantindo, num arrepiante cântico, que “chuva p’ra nós é sol”, bom, isto é um património afectivo que vale por muitos títulos e não se conquista com facilidade. Até porque não há feito. Nasce-se e cresce-se assim. Com lágrimas de alegria e de tristeza. Com abraços por ambos. É disto que são feitas as paixões.

Por vezes tentamos explicar a outros como é isto de ser Vitoriano, uma decorrência de ser Vimaranense, nossa Pátria comum. Há quem não compreenda. Pois! Mas se não conseguem compreender, nós também não conseguimos explicar-lhes. Já tiveram cem anos para perceber isto. Os nossos títulos também estão na singularidade do Vitória, em fazer parte desta família única que nos orgulha. Uma família de Campeões.

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