Miguel Wandschneider abre novo capítulo do CIAJG com Jorge Molder e a descoberta de Aidan Duffy
O Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) dá início no sábado, 21 de março, às 17h00, a um novo ciclo expositivo que assinala a entrada de Miguel Wandschneider na direção artística da instituição. A inauguração reúne três exposições distintas, numa programação que o próprio define como assente no contraste, no risco e numa nova forma de olhar o papel do centro.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Ao Mais Guimarães, o diretor artístico sublinha desde logo a diversidade das propostas: “No próximo sábado e nos cinco meses e meio que se sucedem, as pessoas podem encontrar três coisas muito distintas.” Entre essas propostas está “Come di”, uma grande retrospetiva de Jorge Molder, figura central da fotografia contemporânea portuguesa. “Uma grande retrospetiva de um artista amplamente conhecido em Portugal e já veterano”, descreve.
A aposta na retrospetiva de Jorge Molder reflete também uma estratégia. Trata-se da primeira exposição antológica de um artista português consagrado na história do CIAJG, assumindo-se como um marco na programação da instituição. A divisão em duas partes, já que a segunda exposição poderá ser visitada a partir de finais de setembro, permitirá uma leitura mais aprofundada da obra, mantendo, no entanto, a autonomia de cada momento expositivo.
Em contraponto direto surge “Back Outside”, do jovem artista escocês Aidan Duffy. Com apenas 30 anos e ainda pouco conhecido mesmo em circuitos mais restritos, representa, segundo Wandschneider, uma aposta: “Há aqui desde logo um jogo, um risco. Há um risco nesta diferença entre algo já consolidado e algo completamente novo.” Duffy representa a intenção do CIAJG de cruzar gerações, percursos e níveis de reconhecimento no panorama artístico.
A terceira exposição corresponde a uma nova apresentação do núcleo de arte africana da coleção de José de Guimarães, agora reorganizada. Uma mostra que vai reforçar a ideia de diversidade e de ruptura com leituras anteriores.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Para o diretor artístico, esta programação não procura pontos de contacto óbvios entre as exposições, mas sim o seu oposto: “A ideia é que possa haver exposições simultâneas que não se relacionam por consonância ou por proximidade, mas funcionam de uma forma polarizada, por contraste.” Uma estratégia que marca um novo ciclo “sob a minha batuta”.
As mudanças estendem-se também à forma como a obra de José de Guimarães será apresentada. “Vamos deixá-lo em repouso”, afirma Wandschneider, explicando que a opção passa por preparar exposições individuais mais consistentes e aprofundadas.
Mais do que uma mudança “drástica na forma como o artista é apresentado” , trata-se, nas palavras do diretor, de uma alteração de perspetiva: “Há um novo olhar sobre o José de Guimarães, um novo olhar e uma nova ideia de como posicionar o centro num contexto internacional.” Um objetivo que, recorda, está inscrito na própria identidade da instituição.
A primeira dessas exposições está prevista para o início de 2027 e deverá centrar-se no período entre 1971 e 1974, considerado fundamental na obra do artista vimaranense.
Consciente das limitações do centro, também de orçamento quando comparado com outros espaços, Wandschneider afasta expectativas irrealistas quanto à dimensão dos públicos. “Os centros de arte contemporânea não têm essa capacidade de congregar um público muito vasto”, afirma, lembrando que essa realidade não é exclusiva de Guimarães. O diretor do centro afasta comparações com grandes instituições internacionais como o Centro Pompidou ou o Museum of Modern Art, em cidades de outra dimensão e que vivem noutra realidade de turismo cultural.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Ainda assim, define objetivos claros: “Tenho o objetivo de fazer crescer os públicos, em termos quantitativos”, mas também de criar “modos de relação qualitativamente muito ricos com o público que vem.” Mais do que números, a prioridade é a relevância: “A minha grande prioridade é desenvolver um trabalho de enorme qualidade aqui na cidade de Guimarães e envolver também os públicos dos concelhos à volta de Guimarães.”
O responsável sublinha ainda que o centro não parte de uma posição frágil no cenário nacional. Pelo contrário, reconhece o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos e a sua afirmação no setor: o CIAJG “já tem uma posição muito interessante no xadrez das instituições e da oferta de exposições em Portugal.”
A nova direção assume como prioridade consolidar e ampliar essa relevância, através de uma programação exigente e de um reposicionamento estratégico. Segundo Wandschneider, a estratégia inclui não só a aposta em artistas e projetos com maior circulação internacional, mas também uma nova forma de olhar para a produção artística portuguesa. O diretor artístico defende que o CIAJG deve reforçar a sua capacidade de diálogo entre o contexto nacional e o panorama global, criando uma programação que seja simultaneamente relevante para diferentes escalas.
As três exposições inaugurais estarão patentes até 6 de setembro de 2026, marcando o arranque de uma nova fase no CIAJG, uma fase definida pelo risco, pela diferença e por um novo olhar curatorial.





