Zebra Libra: “Um estado de espírito e uma questão de atitude”

Uma banda jovem que começou em 2018 com João, Henrique e Dave. Alex juntou-se aos Zebra Libra já em 2020, altura que o crescimento abrandou devido à pandemia. À Mais Guimarães, recordam o início, ainda como banda tributo, contam como surgiu o nome Zebra Libra e levantam o véu sobre o que o futuro reserva.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

Vocês surgem como um tributo a Green Day. Como é que vocês se juntam?

O João estava numa banda de tributo. Havia um guitarrista e precisavam de um baixista. Depois precisávamos de um baterista e o Dave entrou. Basicamente, nenhum de nós se conhecia. O João precisava de um baixista, depois nós precisamos de um baterista e depois decidimos começamos [Henrique, João e Dave] a fazer originais e precisamos de um guitarrista [Alex]. Estávamos a ver um concerto dos Slipknot quando lhe disse “hey man, acho que vamos precisar de um guitarrista para a banda”.

O João era guitarrista…

Bons velhos tempos, quando ainda tínhamos solos nas músicas [risos].

Zebra Libra é uma banda que é apresentada como sendo de Santo Tirso, mas na verdade também há um elemento de Joane, e agora de Guimarães, e vocês ensaiavam em Guimarães. É isso?

É um bocado all over the place. É Santo Tirso, porque no início tocamos várias vezes em Santo Tirso e temos dois elementos de lá. Foi um bocado por aí, mas também estamos com uma presença muito grande em Guimarães por causa da jam e por causa do Alex, e já tocamos várias vezes em Guimarães.

Por acaso ensaiamos em Santo Tirso agora, temos um estúdio lá. Mas, na altura, ensaiávamos no Jordão, antes de começarem as fatídicas obras, em 1978. Arranjamos outro sítio. Mas eram boas salas, a um preço muito bom. Agora não pagamos. Durante a quarentena decidimos começar a montar um estúdio. Tínhamos um espaço, tratamos da parte das obras e depois tratamos de tudo para podermos ensaiar lá. Temos sorte, porque tanto temos o estúdio para ensaiar, como temos cá em Guimarães a casa do Alex onde temos material que dá para compor. Em termos de sítio, estamos bem servidos.

Começam a fazer originais e como é que surge o vosso primeiro EP?

Começamos a escrever originais, veio essa vontade, e abandonamos a situação dos Green Day. O nosso EP surge mesmo naquela de que estamos a começar e, é a verdade, não sabíamos bem o que fazer e fomos experimentando coisas. Pegamos nas nossas melhores músicas da altura, o que achávamos que gostávamos mais, e quisemos fazer um EP. Um álbum apareceu-nos demais, também não sei se tínhamos músicas suficientes e não havia dinheiro. Fomos fazer o EP mesmo naquela de descobrir, descobrir o mundo, descobrir o nosso som.

O vosso processo criativo é partilhado? Há alguém que seja responsável por alguma parte mais específica?

É colaborativo. Temos cada um mais no seu instrumento, definitivamente, mas tentamos pôr todos o ego lá em baixo para abrir para toda a gente. É assim que nós gostamos de fazer música. Não pode haver ego, é para a música, não é para cada um de nós.

E as letras?

O João escreve e depois é censurado [risos].

As vossas letras não são assim tão diretas e lineares. O que é procuram passar?

Não vou estar a dizer sobre o que é ou não. Mas, pessoalmente, não acho muita piada a ser direto. Isso tira a mística e a capacidade de… A cena fixe é essa. Uma música para mim pode ser sobre isso e para outras pessoas não. Quanto menos diretas forem, mais capacidade há de interpretar e de cada um se identificar à sua maneira com a música. Mas temos exemplos onde é mais direito, por exemplo, o nosso último single. Acho que é muito self-explanatory e mesmo com a ajuda do videoclipe se percebe relativamente bem aquilo que queríamos dizer.

Não é só a letra que transmite, é toda a música. A própria guitarra transmite aquele sentimento… Se não estiver tudo em sintonia, a música não fica coesa e isso já não é a diversidade de interpretações, já causa mesmo a desordem.

A vossa última música, Collide, tem um videoclipe que, desde já, parabéns. A ideia foi vossa?

O Henrique chegou com a revelação depois de ter visto as suas sete temporadas de Euphoria, depois do wallpaper que ele tinha no telemóvel da Zendaya e pensou “se calhar…” [risos].

O videoclip é gravado no estúdio, mesmo a zona da festa. A ideia é toda nossa. A gravação é com a Coalblur, a equipa que nós costumamos trabalhar, também daqui de Guimarães. Adoramos trabalhar com eles, super profissional. Um gajo ainda não tem muitas possibilidades, por isso fazemos tudo por nós próprios: ideia, decoração do espaço, o pessoal era todo amigo. É tudo feito por nós, à nossa maneira, e depois gravado com uma equipa.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

Porquê Zebra Libra?

Zebra Libra tem a ver com o equilíbrio. Nós gostamos do equilíbrio na música. Ou seja, Zebra, que é preta e branca, como o yin yang, e Libra que é da balança. Ou… eu fui pesquisar ao Google o que é que rimava com Zebra. Eu deixo interpretarem isso. Não digo qual é a verdade. A que vos parecer melhor, está tudo bem.

E como é que vocês se definem?

A música e nós como banda, está ligado. Acho que somos energéticos, joviais, modernos – tentar abraçar o rock mais moderno. É uma cena mesmo de banda, de pormos cada um a parte individual no que nós fazemos. Não ser só banda, mas sermos os quatro. A banda somos os quatro. Num mundo que é dominado, hoje, por artistas e pessoas individuais, quase imagens de marca, queremos trazer um bocado aquele espírito de grupo.

O rock é só música ou também é um estado de espírito e uma questão de atitude?

É um estado de espírito e uma questão de atitude. Até porque o rock, no fundo, é vários estilos de música. Billie Eilish pode ser chamada de rock quase. É a atitude, a forma como tu vives as cenas, enfrentar as coisas de cara… O pessoal do hip hop é rockeiro, as novas rockstars são os rappers.

Diz-se muito que que o rock está a morrer. Está a morrer ou está escondido?

Esteve escondido e agora está a voltar. Temos vários exemplos disso no panorama geral da música moderna. Machine Gun Kelly, Willow, Olivia Rodrigo, Maneskin, as colaborações do Travis Barker… estão a tentar puxar e distribuir isso a um público mais jovem que não teve ligação com essa altura. Nós tivemos, mas os mais jovens de agora não tiveram.

Mas sentem que há espaço para a vossa música numa cidade como Guimarães?

Há. Guimarães é uma cidade rockeira, é a capital do rock escondida. Há espaço para toda a música, a realidade é essa. Se a música for boa e aquilo que transmitir por algo importante para o artista e para o público, há espaço para todo o tipo de música. A realidade é que hoje em dia cada vez há menos géneros, o pessoal ouve tudo. Tu não ouves ninguém que ouça só hip hop, ou rock, ou metal, ou pop. Hoje em dia pessoal ouve tudo. O pessoal agora ouve playlists, não ouve artistas em específico. Se calhar as pessoas ouvem muita música que nem sabem de que artista é.

Falaram dos Maneskin e fizeram uma versão em português da Zitti e Buoni. Como é que surge isso?

Mais uma vez, o Henrique chegou depois de ter passado 17 semanas a ouvir a música dos Maneskin: “temos de fazer isto em português”. Não sabemos italiano, então fomos ver a letra do italiano para inglês e do inglês para o português. Portanto, é uma adaptação não literal, porque tinha que soar não bem, mas minimamente decente.

Qual foi o feedback que tiveram?

O pessoal curte sempre ouvir música que já conhece. Correu bem, principalmente no Tik Tok. Era uma música que estava a bater e aquela cena de ouvir na nossa língua é sempre interessante. Ainda por cima são uma banda europeia.

E aos originais? Como é que as pessoas reagem?

Pelos nossos cálculos, quem ouve, 68% gosta, três pessoas [risos].

Eu acho que o pessoal gosta. Quem ouve, por norma, se curtir mais ou menos do género, gosta. O problema não é as pessoas gostarem ou não gostarem, o problema é chegar a muitas pessoas. Se nós chegássemos a todas as pessoas no mundo, nem que uma em cada 100 gostassem, tínhamos 70 milhões de fãs. O problema é chegar às pessoas, porque é um mercado muito saturado. E depois tens aquele estereótipo que é toda a gente, ou bué gente, tem uma banda. Só que, na maior parte das bandas, é uma cena mais casual. Então quando alguém te diz quem tem uma banda, é sempre aquele estereótipo. Quanto mais conhecido for, mais gosta. Vês muita música a passar aí que se calhar tem a sua qualidade, mas não é tão boa, mas se for de uma cena conhecida o pessoal pensa logo “é conhecido, deve ser bom”. A questão de ser uma banda pequena influencia muito.

Agora é trabalhar mais para chegar ao máximo e mostrar que estamos a levar isto a sério, que não é uma cena casual, é uma cena que é para ir para a frente e para dar o nosso melhor sempre e sempre a evoluir.

Fizeram um acústico…

Somos amantes de boa música. Nós lançamos esse acústico como uma maneira de… gostamos da canção, queremos apresentá-la de outra maneira, queríamos ter uma versão diferente da música. Fizemos mais por nós próprios. Não temos tantas visualizações, mas também não era para ter. Foi naquela questão de insistir com a canção que lançámos para continuar a promover de outra forma. O objetivo era dar às pessoas, que já tinham ouvido a música e tinham gostado, uma versão diferente. Fizemos um vídeo com momentos nossos do passado, desde o início da banda até ao momento do vídeo. Também foi dar a nossa parte pessoal.

Já tive a oportunidade de vos ver num palco, ainda que no palco do Vila Flor. Vocês gostam mais de estar em estúdio e gravar ou estar em palco e em contato com as pessoas?

Meio, meio. São coisas diferentes. Mas depende dos concertos. Sem rodeios, palco. Tivemos um concerto no Porto em que o público interagiu bué e estava a curtir as músicas, saltava, cantava… Esses concertos são extraordinárias. Mas quando é aqueles, por exemplo, no Vila Flor… O concerto em si foi fixe, palco altamente, equipa de som altamente, técnicos altamente, mas as pessoas estão sentadas à tua frente. O nosso estilo de música, com as pessoas à nossa frente, não tens aquela energia, não sentes o ambiente.

Vocês começaram em 2018 e até tiveram um crescimento relativamente rápido. Entretanto, o Alex integra a banda e, pouco tempo depois, covid…

Nós no verão de 2019 demos muitos concertos pelo país, com ou sem público. E o Alex foi logo tocar à festa do El Rock, ao Avante. Mas ele veio connosco a primeira vez ter com o produtor. Isso aí foi dose, primeiro choque. Dizerem que alguma coisa está mal, assim de caras… Ter alguém que percebe mais a guiar-nos é sempre uma coisa que nos choca no início, mas, ao mesmo tempo, puxa por nós para melhorarmos. Também vem muito daí o crescimento. Temos que agradecer mesmo ao Vasco o trabalho que ele tem connosco. Achamos mesmo que as nossas músicas subiram bastante com ele. O facto de ele estar lá de fora, faz com que tenha uma visão da música diferente. A figura do produtor é essencial.

Sentem que, de certa forma, a pandemia veio abrandar esse crescimento?

Imenso. Veio abrandar em termos de capacidade de divulgação através de concertos. Se calhar tínhamos mais tempo até para fazermos mais músicas, mas mesmo no início foi complicado. É como disseste, nós começamos em 2018, fins de 2018, no verão de 2019, que tínhamos acabado de gravar o EP, fomos dar concertos por todo o lado. Estávamos a ir a estúdio, um estúdio que já foi mais a sério, com produtor, e depois pandemia. Aliás, antes da pandemia, mesmo, tocámos no El Rock e pensamos: “acabamos de tocar para duas mil pessoas, agora é que vai ser, o próximo verão vai sério, incrível”.

Em Portugal, os concertos são todos no verão, e mesmo o verão passado, que era suposto já estar mais controlado, foi um pico muito grande. Agora o pessoal está com esta fome de concertos, pode ser muito bom nestes próximos tempos para ver se começam até a dar mais valor… Acho que a pandemia até veio trazer isso. Uma pessoa estava em casa e o que é que fazia? Via séries, por exemplo, e isso é cultura. Se calhar, pôs as pessoas a dar um bocado mais valor.

Sentem que Guimarães apoia a cultura local?

Guimarães é das poucas cidades que acho que tem um bom apoio à cultura local. Comparado com o resto, não vou dizer que é uma cidade perfeita, mas tem muito apoio comparado ao resto. Aliás, Guimarães, a nível do norte de Portugal, tirando, se calhar, o Porto porque é uma cidade muito grande, é capaz de ser a cidade com mais cultura. Às vezes basta a pessoa errada estar a mandar, que acontece muitas vezes, porque a cultura é quando vai geralmente quem está lá só por estar. É uma coisa que, na realidade, é bastante complexa: como é que se movimenta gente para ir ver concertos? Como é que se promove o crescimento cultural de determinada zona? Exige muito trabalho e Guimarães tem feito as coisas nesse sentido.

Também tivemos sorte em Santo Tirso, tivemos muitos concertos. Tivemos bastante apoio nesse aspeto, mesmo de Câmara. Santo Tirso tem muita música, o problema é que é uma cidade mais pequena. Nota-se que há muito trabalho e nem sempre há oportunidades para o pessoal tocar.

O que podemos esperar no futuro?

Vai sair um novo single brevemente, fica aqui a promessa, vamos voltar a estúdio, e temos mais dois ou três singles planeados este ano. O nosso objetivo este verão era dar o máximo de concertos possível, vamos ver como corre.

O plano era conquistar Portugal primeiro, mas sempre quisemos expandir. Tínhamos possibilidade de ir para Europa, mas nós queremos fazer as coisas bem feitas. Queremos expandir para a Europa já quando tivermos público que nos quer ouvir na Europa. As pessoas não ficam com a ideia da banda só por nos ouvirem tocar. Estamos numa era global, consegues apanhar alguém, sei lá, que esteja no Zimbabué, só por ir ao Spotify ouvir-nos.

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