A JUSTIÇA ESPECTÁCULO VERSUS O JORNALISMO ESPECTÁCULO

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista clínico

Na nova organização do mapa judicial, o Tribunal de Guimarães ficou com várias valências, entre as quais a do “crime”. Por isso temos assistido nos últimos tempos ao espectáculo dos julgamentos mediáticos, que as televisões transmitem em directo até à exaustão. É o caso do julgamento do rapto e assassínio do empresário bracarense João Paulo Fernandes e, mais recentemente, da “Operação Fénix”.

Depois de ter sido Capital de Portugal, Capital Europeia da Cultura, Capital do Desporto e futura Capital Verde, Guimarães bem pode reivindicar o título de “Capital do Crime”.

Relativamente ao julgamento que teve início no passado dia 15 de Fevereiro, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, não deixa de ser irónico o imaginativo título dado a este processo: “Operação Fénix”, essa ave mítica que sempre que era queimada, renascia das cinzas, desafiando a paciência dos bombeiros que sempre que davam por concluído um rescaldo aparentemente bem sucedido, viam o “objecto” ardido tomar de novo a primitiva forma.

Dizem que foi dado este nome ao processo em “homenagem” a Pinto da Costa, essa ave rara que, tal como a fénix, tem sobrevivido a todas as tentativas que têm sido feitas para o queimar.

Pinto da Costa, sendo um dos arguidos com uma das acusações mais leves neste processo, em que os principais arguidos são acusados de crimes graves, foi, contudo, o alvo principal dos jornalistas, que o esperavam à porta do quartel dos Bombeiros onde ia decorrer o julgamento. E uma vez mais pudemos assistir ao triste espectáculo levado à cena por uma conhecida jornalista, de um conhecido canal televisivo, que privilegia um género jornalístico que não anda longe do chamado jornalismo de sarjeta.

Pinto da Costa não é propriamente um santo, antes pelo contrário, mas isso está longe de justificar a forma, tantas vezes provocatória, como é abordado por certos detentores da carteira profissional de jornalista. Este modo de ser e de estar, roçando entre o espectáculo boçal e a perseguição policiesca, não abona nada em favor de uma classe que nos habituou a tratar os assuntos da informação com independência e imparcialidade, sem perder de vista as regras da boa educação.

É claro que não faltam por aí muitos arautos da verdade, que – não duvido – sendo detentores de mentes bem formadas, estão sempre prontos para sair a terreiro em defesa da sagrada liberdade de imprensa, como se se tratasse de uma entidade intocável, insusceptível de ser sujeita a qualquer escrutínio.

São os políticos que, pelos seus actos, estão cada vez mais a descredibilizar a política, com os resultados a que temos assistido. Da mesma forma, serão os jornalistas que, pelas suas más práticas, hão-de descredibilizar o jornalismo. E quando os meios de comunicação clássicos perderem a sua credibilidade, nada mais nos restará senão as redes sociais, que difundem pretensas verdades e geram factos alternativos, sem qualquer controlo, criando um caldo de cultura propício ao desenvolvimento dos neo-populismos autoritários e totalitários, que convivem bem com aquilo que os sábios designam de pós-verdade.

Num artigo de opinião que escrevi há alguns anos para um jornal já desparecido, fiz referência a um passeio de carro junto ao mar, em dia de tempestade severa. Durante esse passeio arriscado, tive oportunidade de assistir ao derrube de um pequeno farol cravado num rochedo da orla costeira, farol esse que, desde aquele momento, ficou à deriva, baloiçando ao sabor da forte ondulação marítima. Pensei então para mim: “Quando o farol, que era suposto servir-nos de orientação, anda ele próprio à deriva, quem nos há-de guiar até ao porto seguro?”

 

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