Identidade e broncas urbanísticas

por Carlos Guimarães
Médico urologiasta

Este texto é não político, trata-se apenas de um exercício descritivo da cena de um filme que se planta à frente dos nossos olhos. Não se trata de apontar o dedo a alguém em concreto e resume-se provavelmente à nossa incultura coletiva e à nossa incapacidade em tentar mudar o rumo das coisas. Caminhamos demasiado ao sabor do vento e raramente contra ele. Ontem éramos excelentes teóricos do futebol, mas na falta dele, convertemo-nos em fantásticos virologistas. Apesar disso somos as mesmas pessoas e não podemos olhar sempre para o lado.

O crescimento limitado de Guimarães é algo que me agrada quando comparado ao desenvolvimento desenfreado de outros concelhos. O desenvolvimento das cidades deve ser ajustado às sua necessidades e alinhado sobretudo com as necessidades das suas gentes. Neste aspeto, as gentes do “condado” vimaranense são muito ciosas da sua identidade e do seu espaço. Recebemos bem quem chega, mas que chega nem sempre se sente bem, sobretudo quando não se identifica com as pessoas. Os espaços podem ser sempre requalificados numa estética mais ou menos atrativa, mas as pessoas são como são, podem mudar as aparências mas a sua essência é imune a todas as revoluções cosméticas. O s”er vimaranense” é uma espécie de carimbo genético difícil de alterar, sobretudo para quem viveu e cresceu no ambiente urbano ou nas cercanias deste. Esta forma de ser e de sentir vai-se atenuando à medida que as freguesias se afastam da cidade. Nessas freguesias mais recônditas observamos evidentes sinais de desigualdade e “esquecimento”. Nem precisamos de falar com as pessoas que o sentem, basta olhar para o dejeto urbanístico de muitas ruas e lugarejos onde se permitiu construir em qualquer beco por onde os automóveis circulam apertados a calcar pisos remendados e degradados ao longo de décadas. Há um contraste notório entre a planificação e requalificação urbanística do centro da cidade e o “afavelamento” de certas freguesias. Os votos eleitorais não podem constituir a única métrica que pontifica nas decisões dos investimentos autárquicos.

Independentemente dos atentados urbanos e paisagísticos e do maior ou menor abandono de certas freguesias, fica-se chocado com a promiscuidade gritante entre as áreas residenciais e a indústria, sendo facilmente visível a caldeirada de moradias e apartamentos com pequenas e não menos pequenas unidades industriais. Uma génese normal e regular no passado que o presente deveria eliminar.

Na segunda década do terceiro milénio deveríamos estar preparados para afirmar que as áreas industriais não se misturam com as zonas residenciais, mas estamos longe de tecer essa afirmação. No centro cívico de uma freguesia bem próxima da cidade, entre um bloco de apartamentos e o Centro de Saúde, está a nascer uma generosa unidade industrial. Não precisamos de mestrados e doutoramentos em urbanismo para sentir que algo está errado. O desenvolvimento e a economia mãe não podem permitir que tudo aconteça debaixo das suas asas. Desconheço o dono da obra, mas acredito que seja pessoa dotada e influente, daqueles que se mexem bem, conseguem tudo e a quem não se pode frustrar os seus desejos. Ao observar estas incongruências temos razão para acreditar que não somos todos iguais, há sempre alguém mais igual que os outros. Afinal de contas o impossível também acontece.

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