Voando sobre um ninho de queixas
Por José João Torrinha.

jose joao torrinha
Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães Uma das tendências que tem acompanhado o aparecimento e crescimento das redes sociais é a de toda a gente opinar sobre tudo, ainda que muitas vezes falte o conhecimento mínimo exigível ao opinador. O mundo tornou-se um habitat de especialistas instantâneos.
Pela parte que me toca, tento contrariar essa moda. Um dos assuntos em que prefiro a abstenção é o da posição a tomar no que toca à TAP. Nada percebo sobre aviação e sobre o negócio que lhe anda agregado e pouco percebo sobre macroeconomia.
Dito isto, é verdade que ouço frequentemente pessoas a queixarem-se da qualidade do serviço prestado pela operadora portuguesa. Como não sou assim tão viajado, não tenho uma experiência concreta e abrangente sobre o assunto. Todavia, tenho amigos que andam sempre enfiados em aviões e é deles que muitas vezes vou ouvindo as mais diversas reclamações.
No fim-de-semana passado, tocou-me a mim. Uma viagem e três voos: dois numa operadora estrangeira e um na TAP. Os dois primeiros foram absolutamente normais. O último era o da TAP. Aguardando pela hora do voo, os passageiros são surpreendidos por uma informação a vermelho constante do painel eletrónico: “cancelado”.
Estupefacto, tentei saber o que se passava, mas entretanto, misteriosamente, essa informação desapareceu. Na porta de embarque deram-me as boas e as más notícias: o voo não está cancelado (fora um “erro do sistema”, um clássico dos tempos modernos), mas está atrasado uma hora e meia.
Quando finalmente se abriram as portas de embarque, a formação das várias filas desenrolou-se de forma caótica, motivando mais queixas dos passageiros. Seguiram-se mais esperas: à porta do autocarro que nos levaria ao avião; no interior do próprio autocarro; no interior do avião. Atrasos que se somaram ao atraso inicial e que levaram a que se levantasse voo muito para além da hora prevista. Pelo meio, alguns passageiros escolhidos “ao calhas” ainda foram informados de que a sua bagagem de mão teria que seguir no porão. Ou seja, à chegada ainda teriam que somar mais uma espera.
Sei bem que a minha amostra não é representativa. Que de uma má experiência não podemos extrapolar para uma tendência. O meu ponto não é esse. Aliás, são dois. Um é que a minha experiência se soma a tantas que fomos ouvindo de quem tem um conhecimento direto bem mais representativo. Outro é que, sabendo que falhas acontecerão sempre e com qualquer companhia, a verdade é que, durante todo este processo, não existiu um pedido de desculpas por parte de ninguém.
Mesmo quando, já no avião, se explicava o sucedido, pedidos de desculpas aos passageiros, zero. A dada altura, enquanto a espera se prolongava ainda mais, uma passageira sentada ao meu lado perguntava a um assistente de bordo se a TAP pensava que a nossa paciência era infinita. E invocava, claro está, os impostos que pagava e como voavam também para os cofres da operadora.
E aqui chegamos ao ponto final desta história. Sabendo-se o que se sabe acerca do que aconteceu com esta companhia de bandeira, o mínimo exigível é que, por um lado, se reduzam ao mínimo falhas como esta e por outro, quando elas acontecem, que se assumam e se tratem as pessoas bem, pedindo as necessárias desculpas a quem as merece.
Porque se for de outra forma, mais vale mesmo que o dinheiro de todos voe para outro lado.





