Wladimir Brito: A coragem de pensar e construir

Há vidas que atravessam fronteiras; outras atravessam regimes, revoluções e desilusões sem nunca perderem o norte ético. A de Wladimir Brito é uma dessas raras trajetórias que honram a língua portuguesa e a ideia de liberdade.

© Eliseu Sampaio

Nascido na Guiné, filho de pais cabo-verdianos, cresceu em São Vicente, num dos melhores liceus do Império. Muito cedo percebeu, ainda que de forma intuitiva, que o mundo não tratava todos por igual. Aos 16 anos, sem plena consciência política, ousou passar Zeca Afonso na rádio e sentiu a sombra da PIDE. Mais tarde, em Coimbra, entre tertúlias literárias e debates filosóficos, a inquietação ganhou forma. A expulsão da universidade não o calou, empurrou-o para os quartéis onde, como jovem oficial, ajudaria a preparar o dia maior da liberdade portuguesa.

Quando ouviu “Grândola”, sabia que a História estava a mudar. E mudou com ele. Mas a sua coerência não se ficou pelo 25 de Abril.

Regressou à Guiné independente e teve a coragem de denunciar derivas autoritárias, recusando aplicar a pena de morte enquanto juiz. A desilusão não o tornou cínico; tornou-o mais exigente.
Em Cabo Verde, foi decisivo na construção da Constituição que sustenta uma das democracias mais estáveis de África. “Nenhum povo pode entregar a construção do seu Estado a terceiros”, afirma, e a sua obra prova-o.

Professor na Universidade do Minho, em Guimarães, continuou a formar gerações com a mesma matriz: pensamento crítico, rigor e independência.

Mas reduzir Wladimir Brito aos cargos que ocupou seria injusto. O que verdadeiramente marca o seu percurso é a fidelidade a uma ética de responsabilidade. Nunca confundiu liberdade com oportunismo, nem militância com obediência cega. Participou, rompeu quando teve de romper, pensou pela própria cabeça.

Defendeu a separação de poderes quando ela era frágil, questionou sistemas políticos importados e insistiu que a democracia não se decreta, constrói-se, todos os dias, com cidadãos exigentes e informados.

Wladimir Brito nunca foi homem de consensos fáceis, mas de compromissos sérios. A sua vida ensina que a liberdade exige vigilância, que a democracia se constrói com cultura e que pensar é um ato de coragem.

Aos 77 anos, diz que lhe “falta morrer”, uma declaração que nos inquieta. Felizmente para nós, continua lúcido e inquieto, a agitar consciências e a lembrar que é preciso ir sempre “ver em profundidade”

A entrevista à edição de fevereiro de 2026 pode ser lida aqui: https://maisguimaraes.pt/wp-content/uploads/2026/02/N154.pdf

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