Nova edição do Fanzine do Círculo de Arte e Recreio celebra liberdade e criatividade jovem
A mais recente edição da revista Fanzine do Círculo de Arte e Recreio foi apresentada esta quinta-feira, 30 de abril, integrada no programa Abril com Cantigas do Maio, reforçando o papel da publicação como espaço de expressão artística e intervenção cívica juvenil.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
A iniciativa voltou a destacar-se como plataforma de reflexão em torno de valores estruturantes da sociedade portuguesa, como a liberdade e a memória da Revolução dos Cravos. A edição deste ano reúne trabalhos centrados em temas como o centenário de Eduardo Ribeiro, os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e das primeiras eleições autárquicas, bem como a simbologia associada ao 25 de Abril.
Grande parte dos conteúdos resulta da participação de alunos de Artes da Escola Secundária Martins Sarmento, evidenciando o envolvimento dos jovens na criação artística e na abordagem crítica a temas históricos e sociais.
Fernando Capela Miguel traçou um enquadramento histórico do conceito do Fanzine, recordando as suas origens nos subúrbios de cidades como Nova Iorque e Chicago. “O Fanzine nasce de uma necessidade de expressão. Jovens sem acesso a meios formais de produção artística desenhavam em toalhas de papel, reaproveitavam suportes, e criavam publicações livres, muitas vezes distribuídas de forma informal”, explicou. Segundo o próprio, esta cultura rapidamente se disseminou, chegando às universidades europeias e, posteriormente, a Portugal.

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Em Guimarães, o movimento ganhou expressão na década de 80 no Círculo de Arte e Recreio, gerando iniciativas como a Semana da Banda Desenhada, que durante cerca de dez anos trouxe à cidade alguns dos mais relevantes autores nacionais. “Foi um período muito rico, com grande dinâmica criativa. Conseguimos mobilizar artistas, público e criar uma verdadeira comunidade em torno da banda desenhada”, recordou, sublinhando ainda o impacto que essa geração teve, apesar da posterior dispersão dos seus elementos.
Após um período de interrupção, o projeto do Fanzine foi retomado há cerca de oito anos, pela mão da professora Corália Costa, da Escola Secundária Martins Sarmento. A docente descreveu o processo como um desafio exigente, mas também profundamente gratificante. “Quando me foi lançado o convite, o projeto estava praticamente parado. Aceitei porque acredito no potencial educativo e artístico deste tipo de iniciativas”, afirmou.
O trabalho com os alunos começa ainda durante o ano letivo, com o lançamento de temas e orientações específicas. “Apresento-lhes referências, explico o conceito de Fanzine, trabalhamos a simbologia associada à liberdade e ao 25 de Abril. Depois, eles desenvolvem as suas ideias, experimentam linguagens e constroem propostas muito diversas”, explicou.
Apesar de reconhecer que alguns temas, como a Constituição ou processos históricos mais abstratos, podem representar um desafio maior do ponto de vista visual, a professora considera que a ligação à Revolução dos Cravos continua a ser um elemento mobilizador. “Os símbolos da revolução, como o cravo, a censura ou as algemas, são mais facilmente apropriados pelos alunos. Funcionam como ponto de partida para refletir sobre liberdade e direitos”, disse.
Corália Costa destacou ainda a importância de encontrar estratégias para aproximar os jovens de acontecimentos históricos que não viveram. “Muitas vezes, o 25 de Abril surge como algo distante. É preciso criar pontes, através da arte, da imagem, de referências culturais, para que consigam compreender e sentir o significado dessa revolução”, referiu.

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O projeto não se limita ao contexto escolar, envolvendo também a comunidade e antigos alunos, alguns dos quais continuam a colaborar em atividades artísticas e oficinas promovidas pelo Círculo de Arte e Recreio. Este trabalho contínuo tem contribuído para consolidar o Fanzine como um projeto vivo, intergeracional e em constante renovação.
Para Ana Maria Silva, diretora da Escola Secundária Martins Sarmento, iniciativas como esta são fundamentais para o desenvolvimento dos alunos. “Quando os estudantes percebem que o seu trabalho tem visibilidade e impacto real, o envolvimento cresce. Projetos desta natureza promovem não só competências artísticas, mas também pensamento crítico, autonomia e ligação à comunidade”, destacou.
A responsável sublinhou ainda o historial da escola na dinamização de projetos interdisciplinares e criativos, recordando experiências anteriores ligadas à ilustração de obras literárias e à celebração do 25 de Abril. Nesse sentido, considera que o Fanzine poderá continuar a crescer e a envolver cada vez mais alunos de diferentes áreas.
A próxima edição, em 2027, deverá incluir uma homenagem ao professor e artista Salgado Almeida, falecido recentemente, figura marcante no ensino artístico e na história cultural local. “Será uma forma de preservar a memória e dar a conhecer o seu legado às novas gerações”, referiu Corália Costa.





