“A CORRUPÇÃO TEM MUITO A VER COM A FRAGILIDADE DE QUEM É CORROMPIDO”

O futebol nos olhos de um dos seus melhores professores. Manuel Machado, treinador de 62 anos, analisa o estado atual das equipas vimaranenses e do futebol português.

A sua experiência em Moreira de Cónegos foi curta. O que falhou?

A questão do Moreirense, é mais uma questão de afeto do que uma questão racional. Eu vinha já de uma situação muito idêntica no Arouca e por isso nunca iria meter numa outra, não fosse a ligação que eu tenho com o clube e com as gentes de Moreira de Cónegos de há muitos anos. Quando cheguei a Moreira de Cónegos aquilo era praticamente uma folha em branco, o clube reteve só quatro jogadores do plantel anterior e por isso era preciso refazer quase a 100% o plantel, pela dimensão do clube havia alguns condicionantes no plano financeiro que também estreitam o caminho da escolha. Ainda assim, eu e as pessoas que me auxiliaram na reconstrução do plantel julgo termos feito um bom trabalho. Considero que o Moreirense tinha um bom grupo quer no plano humano, ao nível do comportamento, quer no plano desportivo. Conseguiu uma vez mais em dificuldade assegurar a sua permanência, e por isso não deixa de ser uma época com relativo sucesso. Ainda assim, estou convicto que aquele grupo merecia mais uma dúzia de pontos.

 

“A saída prematura [do Moreireirense] tem a ver com a ansiedade que há de

fazer com que uma mulher que acabou de ser inseminada, tenha que dar à luz

ao fim de três meses. Há um processo de gestação natural que tem os seus timings.”

 

Mas o que levou à sua saída prematura?

A saída prematura tem a ver com isso, com a ansiedade que há de fazer com que uma mulher que acabou de ser inseminada, tenha que dar à luz ao fim de três meses, e não é assim. Há um processo de gestação natural que tem os seus ‘timings’. Quando um plantel é construído praticamente de raíz, o processo de construção, da passagem da ideia de jogo, a mecânica do jogo demora o seu tempo e havia muita ansiedade. A equipa de Moreira de Cónegos salvou-se pela segunda vez na última jornada. O que é que acha que falta a este Moreirense para ter uma época mais tranquila? Falta liderança, falta um bocadinho de paciência e confiança. Li que o Moreirense adquiriu 60 mil metros quadrados para construir o seu complexo de treinos. E fiquei muito contente, por isso espero que a autarquia possa ajudar. A vila é muito pequena e o clube por si só terá as suas dificuldades, e julgo que são esses dois fatores: estabilidade ao ponto da liderança e melhoria ao nível das condições de trabalho. As condições de treino que eu encontrei no Moreirense em 2017 eram as mesmas que lá ficaram quando eu saí em 2004.

Voltando agora baterias para outra equipa de Guimarães, o Vitória voltou a fazer uma época abaixo das expetativas, o que é necessário para voltar a ter regularidade classificativa?

O Vitória, como sabem, é o clube que está mais próximo de mim em termos afetivos. Durante muitos anos trabalhei no clube, fui praticante e por isso a minha ligação é até familiar, pai, avô e por aí adiante. Tenho sempre mil cuidados nas abordagens que faço ao clube porque não quero nunca que a parte afetiva seja manchada por questões que se prendem com uma análise mais objetiva e pragmática da realidade. Mas temos que perceber que o Vitória, durante um longo período, teve uma liderança com coisas boas e com coisas más. Estou a falar da liderança de António Pimenta Machado, e a partir de aí teve mais três líderes com relativo curto tempo. Primeiro Vítor Magalhães, que interrompeu o seu mandato, depois Emílio Macedo e finalmente o atual presidente Júlio Mendes, e por isso numa década, são três lideranças e quando assim é, e vou fazer um parenteses, se a gente olhar para o futebol português os clubes de maior sucesso, são aqueles que têm lideres que entraram pela sua competência e pela sua aceitação, pela sua própria liderança foram aceites e têm continuidade. O que eu estou a tentar dizer é que o que falta ao Vitória é uma liderança estável. Falta continuidade porque isto não vem num livro e os gestores e administradores, quer da direção, quer da SAD, precisam de um tempo de aferimento dos comportamentos e decisões.

Acredita que o Júlio Mendes é a pessoa ideal para comandar os destinos do Vitória?

Se olharmos para o catecismo, diremos ‘não julgarás’. A gente anda sempre aqui a dizer que acha isto acha aquilo… E eu não tenho essa dimensão. Na altura foi-me pedida a participação, em termos de dar o meu nome para a comissão e disse ‘ok’, porque acredito que a prestação desportiva não foi assim tão má, culminando na primeira conquista da Taça de Portugal. Não é ótima, mas já não é má. A coragem que tiveram ao pegar no clube, num momento em que financeiramente ele não era nada apetecível, e depois o que disse anteriormente…. Acho que a continuidade, em princípio, no fundamento, permite que as pessoas em determinados processos consigam, com o tempo, melhorar a sua prestação. E depois há que dar tempo. Houve essa coragem, com uma prestação desportiva média/alta, com o tempo acredito que corra tudo melhor financeiramente e acredito que o reflexo desportivo também possa ser melhor.

As suas épocas no Vitória foram de sucesso, porque cumpriu os objetivos. Porque não houve uma continuidade?

Na primeira passagem, em 2004/2005, com o Vítor Magalhães, ele que esteve quatro anos no Moreirense, e que transitou para presidente do Vitória e vim junto, e que conseguimos a qualificação para a Europa. Foi bom. Da minha parte, o que houve foi fundamentalmente um desgaste, pois tinha feito aquilo que era fundamental num ano de sucessão a uma gestão de 24 anos. Quando senti também internamente algum desconforto, porque ser-se da própria terra… Se aqui já não é fácil para qualquer um, para nós vimaranenses muito menos. Havia também algumas opiniões internas no clube, e parece que o presidente alinhava um pouco nelas, no sentido de mudança. E eu achei por bem tomar a iniciativa de deixar o espaço de vago para que outro viesse.

Mas a história voltou-se a repetir, no final da Taça, em 2011…

Depois voltei cá com o Emílio Macedo. Ficámos no quinto lugar, também fomos a uma final da Taça de Portugal. Mas é assim: eu nunca estou onde não me querem. E quando eu sinto algum desconforto da outra parte, eu sou o primeiro a tomar a iniciativa.

A ligação aos adeptos tem uma grande importância em Guimarães. Conta mais aspetos positivos ou negativos nesta forte ligação?

Conto mais positivos, claramente. O facto de haver algumas manifestações de desagrado, normalmente, é consequência de resultados. O facto de o Vitória ter este universo, e este apoio constante, sobrepõe-se a estes momentos pontuais.

Voltando ao futebol, como é que acha que deve ser preparada uma equipa para atacar os objetivos? Acha que um bom ataque ao mercado é muito importante para atingir os objetivos?

Determinante. O que diferencia é uma relação muito curta entre aquilo que é o dinheiro e a qualidade do praticante que naquele pequeno universo vai construir o chamado plantel. E isto atira-nos sempre para a questão dos direitos televisivos. A clivagem imensa que existe aqui condiciona fortemente. Quando se vai construir um plantel, este tempo de construção é determinante. Mas a condicionante maior, para além da escolha técnica, está sempre condicionada àquilo que se tem que gastar. E é o plantel que vai fazer a diferença, não é o treinador. O Pedro Martins fez uma época brilhante, no ano passado. O mesmo Pedro Martins teve que interromper esta segunda época. Porque perdeu Hernani, perdeu Marega, perdeu Soares, perdeu Gaspar. Naturalmente, ele não perdeu, nem qualidade humana, nem técnica. Aquilo que tinha à sua disposição foi algo muito diferente. Por isso, esta fase é muita determinante.

O professor está sem clube desde outubro. Podemos contar consigo já na próxima época?

Não sei. Eu não tenho perspetivas de trabalho interno. Neste momento, convites tenho zero. Os agentes ligam-me a perguntar se querem que ponha o meu nome nos clubes e eu digo que não, não quero. Ou as pessoas vêm de lá para cá, ou não permito que nenhum intermediário o faça. Na minha carreira, foi sempre o presidente a ligar-me, e assim vai continuar a ser.

O professor teve uma experiência na Grécia. Admite ir para o estrangeiro?

Admito. Eu vou treinar. Não sei se vou treinar daqui a um mês ou daqui a três. Não sei se vou treinar em território nacional ou não. Mas vou treinar, é só uma questão de tempo.

É uma hipótese ver o Manuel Machado como dirigente no futuro?

Não. Não a curto prazo. No quadro daquilo que é o perfil das administrações em Portugal, isso que Não. Não a curto prazo. No quadro daquilo que é o perfil das administrações em Portugal, isso que me está a dizer não existe. Existe o cargo e quem ocupa o cargo. Quando chegar a hora do negócio, não é esse indivíduo. Essa figura não existe.

É fácil despedir um treinador em Portugal?

É. Em Portugal, há uma grande contradição. Temos qualidade de treinadores, aceites em qualquer parte do mundo. E são sempre eles a ser os despedidos. Os treinadores são bons, mas são facilmente descartáveis, como sendo os responsáveis quando as coisas não correm bem. Se o problema estiver no clube e o presidente despedir o treinador, o problema não vai com ele. O Estoril e o Paços de Ferreira mudaram três vezes de treinador. Desceram de divisão. O Aves também, e só não desceu porque só descem dois.

 

“Mercados que eram de fácil acesso para Portugal, falo dos anos 70/80/90,

deixaram de o ser. No Brasil, os jogadores que vinham facilmente ganhar

dinheiro para a Europa e deixaram de vir.”

 

Com essa “mão-de-obra” técnica com tanta qualidade, aceita que a qualidade de jogo seja menos boa?

A qualidade de jogo tem vindo a regredir muito. Um fator determinante tem a ver com a qualidade do praticante, que desceu por duas razões. Mercados que eram de fácil acesso para Portugal, falo dos anos 70/80/90, deixaram de o ser. No Brasil, os jogadores que vinham facilmente ganhar dinheiro para a Europa e deixaram de vir. Era o grande mercado que a gente atacava. Por outro lado, em termos de ferramenta humana, o praticante de hoje é muito menos qualificado do que o praticante de ontem. Hoje o jogador ao ser maior, mais robusto, a percorrer mais quilómetros e a velocidades mais rápidas, os espaços (campo) reduziram-se. Há menos espaço para jogar. Só que em termos estratégicos, hoje olhar para um jogo de futebol é quase como olhar para um jogo de basquetebol ou andebol.

Olhando para a I Liga, existe um grande fosso entre as primeiras quatro equipas e as restantes. Este fosso tem tendência a aumentar?

Há três entidades que são responsáveis pelo futebol de alto rendimento em Portugal. Nomeadamente, a Liga de Clubes, a Federação e Secretaria de Estado de Desporto. Por isso, há um grande fosso em termos desportivos, que resulta do grande fosso que existe no suporte económico que cada um dos emblemas tem. Agora, gerou-se o movimento do G15. Se nenhuma destas entidades, vier de forma resoluta a intervir, a situação vai manter-se.

Acha que uma melhor distribuição dos direitos televisivos poderia melhorar a situação?

Acho. Toda a gente acha. Mas acha que Benfica, Porto, Sporting, de livre vontade diriam ‘vamos ficar só com 400 e vocês ficam com 200 para vos ajudar’?

Mas eles também não poderiam tirar proveito dessa competitividade?

Poderiam, no plano internacional. Mas não vão abdicar disso. O que há também é uma série de recursos, do ponto de vista publicitário. Você olha para as camisolas das equipas, com o nome do restaurante da esquina como patrocinador. Há uma série de recursos, que se o jogo fosse mais atrativo, ia chamar mais gente.

Que razões encontra para ver os palcos desportivos tão despidos?

Primeiro, é a qualidade do espetáculo. Digo muitas vezes a brincar: ‘não pagava dez euros para ir ver Marco Paulo, mas pagava cem para ir ver Frank Sinatra’. É evidente que quando há qualidade no espetáculo, seja em qualquer área de atividade, a gente paga e sai satisfeito. Quando é de fraca qualidade, por muito barato que seja a gente não vai, e essa é uma grande razão.

Como vê estas situações de possível corrupção no futebol português, nomeadamente, o Cashball e o E-toupeira?

A questão da corrupção tem muito a ver com a fragilidade de quem é corrompido. Um jogador de futebol de nível médio e de clube médio, não ganha para juntar. Ganha um salário acima das outras áreas de atividade, mas não ganha para chegar aos 35 anos e parar. Isso foram tempos. Hoje não. Há aqui um terreno fértil para que coisas menos saudáveis vão acontecendo.

Como vê o caso de invasão a Alcochete e ainda há uns tempos no Vitória? E como acha que pode ser diminuída a violência fora dos recintos desportivos?

Eu digo sempre que os agentes e a comunicação social são parceiros fundamentais para este fenómeno. Hoje o mundo do futebol depende muito da comunicação social. E com todo o respeito, há desvios que seriam muito importantes serem bloqueados. Diz-se tudo e mais alguma coisa de quem se quer. Devido à juventude, o amor ao clube é mais vulnerável a este tipo de incêndio. É natural que este tipo de fenómeno aconteça e se venha a multiplicar. Vamos ver que tipo de medidas vão ser aplicadas, para quem pensar repetir, que pense duas vezes.

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