A luta inglória dos amantes da pátria

Por Eliseu Sampaio.

Antes de mais, uma declaração de interesses: O meu pai foi combatente no “Ultramar”, e de Angola chegou com memórias várias da guerra, algumas boas, outras difíceis de suportar. A experiência que viveu não fez dele, no entanto, um homem menos feliz. Estava em paz consigo, por ter respeitado o seu juramento, ter cumprido a missão que lhe foi confiada, ter lutado na defesa do seu país. Na altura, as colónias eram Portugal.

Também cumpri, com orgulho, o serviço militar. Também jurei amor à minha bandeira e respeito para com a minha pátria. Estive na calha para embarcar, em missão de paz, para a província sérvia do Kozovo, em 98. Cumpriria a minha missão esperando regressar, como esperam todos os que partem.

O tenente-coronel Marcelino da Mata partiu na passada quinta-feira, vítima de covid-19, aos 80 anos de idade.

Natural da Guiné-Bissau, Marcelino da Mata foi o militar mais condecorado de sempre do Exército, um dos fundadores da tropa de elite “Comandos”, e participou na Guerra Colonial em mais de 2.000 missões, entre elas a de resgate de militares portugueses. Estima-se que, nestas operações em que participou terão sido resgatados mais de 500 militares lusos. Paulatinamente, e numa estrutura rígida como é a do exército, foi subindo de patente, de soldado até major. Em 1969, pelos seus feitos, foi armado cavaleiro da “Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito”. Viveu de modo discreto depois de prestar o seu serviço à pátria, à nossa pátria.

O silêncio que se fez esta semana sobre a morte de Marcelino da Mata foi ensurdecedor. E nele couberam todos os outros heróis, mais ou menos conhecidos, que no cumprimento das suas missões foram esquecidos, ou não homenageados como mereciam.

Porque fingimos não os ver?

Porque queremos apagar este tempo da nossa história?

Lembro que vivem ainda muitos dos nossos soldados desse tempo, e imagino a amargura que sentem agora ao perceberem que a pátria pela qual lutaram os pode ignorar assim.

Haverá, no entanto, sempre quem os recorde como os heróis do nosso tempo.

E não os aplaudamos só na hora de partirem.

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