Amadeu Portilha: “o impacto da pandemia na prática desportiva está a ser brutal”

Em entrevista ao Mais Guimarães, Amadeu Portilha, presidente da direção da Tempo Livre, cooperativa municipal responsável pela dinamização do desporto no concelho, demonstra uma grande preocupação com as consequências da pandemia na prática desportiva, que resultarão num “crescimento exponencial do sedentarismo e, consequentemente, das doenças que lhe estão associadas.”

© Direitos Reservados

Para Amadeu Portilha, “Quando esta pandemia for vencida, uma realidade profundamente triste e assustadora vai emergir: o abandono de muitas pessoas de uma vida saudável, com atividade física regular, onde abundavam momentos de convívio, de relacionamento social e de felicidade.

O impacto na prática desportiva está a ser brutal, quase surreal mesmo, se tivermos em linha de conta que a doença se combate fundamentalmente com um corpo são, um corpo saudável, algo que só se consegue com uma vida regrada e ativa. O desporto formal e competitivo está a ser varrido por um tsunami de desistências, e estima-se que, neste momento, mais de 170.000 atletas federados deixaram de praticar desporto no nosso país, na medida em que o desporto de base formativa está sem rumo, sem competição e sem orientação desde março do ano passado.




Muitos clubes, dos mais bem organizados aos mais pequenos, de bairro, aqueles que são autênticos baluartes do sistema desportivo nacional, estão na iminência de fechar portas. Sem receitas provenientes da formação, sem patrocinadores, sem apoio do estado, vivem atualmente da eterna carolice e generosidade dos seus dirigentes e de alguns pontuais (mas sempre escassos) apoios das Câmaras Municipais, que mais uma vez demonstram valorizar muito mais o papel social do desporto do que o próprio Estado, que tem demonstrado um total alheamento das consequências que esta pandemia está a provocar no ecossistema desportivo nacional.

Mas também o desporto informal, de mera recreação ou de manutenção da saúde e da forma física, está a ser muito afetado. Não só porque as instalações desportivas são as primeiras a fechar e as últimas a abrir, mas porque a insegurança e o medo tomaram conta das pessoas. E por mais criativos e inovadores que os gestores desportivos sejam, com apostas muito interessantes no digital, o desporto e atividade física são feitos de proximidade, de contacto e de relacionamento pessoal, o que significa que só quando o medo desaparecer definitivamente, é que a prática desportiva retomará os seus níveis anteriores à pandemia. E isso vai demorar algum tempo. Infelizmente, na minha perspetiva, vai demorar muito tempo mesmo.”

Respondendo à questão relativa aos efeitos desta diminuição da prática desportiva, gestor afirma que se irá verificar um crescimento exponencial do sedentarismo e, consequentemente, das doenças que lhe estão associadas, como a diabetes, a obesidade e as doenças cardiovasculares. Mas também das doenças do foro psicológico, pois para muitos, principalmente para as crianças e os idosos, o desporto ou a atividade física são de uma importância fora do comum.

Não imagina a dor que sentimos quando as pessoas com mais idade nos contactam, pedindo encarecidamente que retomemos as aulas de natação ou de ginástica, porque aquela hora, duas ou três vezes por semana, são o seu escape à solidão, ao abandono ou à doença. Ou dos pais que nos reportam o estado de ansiedade e inquietação dos filhos por lhes ser negada a possibilidade de queimarem alguma da sua inesgotável energia.

O desporto e a prática de uma atividade física regular são o melhor remédio para muitas das nossas maleitas, e temo que por cada dia que uma instalação desportiva esteja fechada ou que por cada dia que uma pessoa não pratique desporto, os custos diferidos na saúde sejam tremendos. Daqui a uns tempos, quando alguém estudar os sombrios anos de 2020 e 2021, vamos perceber os custos terríveis, físicos e psicológicos, destes confinamentos forçados.

O ser humano foi feito para conviver,  para se relacionar, para ter e trocar afetos. Esta pandemia tirou-nos isso e colocou no seu lugar o medo, o afastamento e a desconfiança. Tudo isto se vai pagar muito caro, não tenho dúvidas. E retomar os níveis de confiança para que as pessoas regressem a instalações desportivas, por mais seguras que sejam, irá tardar o seu tempo.

O problema é que muitas empresas ligadas a este setor, já não aguentam mais. E estão a fechar, lançando no desemprego milhares de profissionais da atividade física e desportiva. Muitos dos quais nunca mais vão regressar, porque esta pandemia acrescentou insegurança e medo em cima da precaridade profissional que muitos já viviam.” Refere Amadeu Portilha.

Já quanto aos programas específicos que a cooperativa desenvolve junto da comunidade, o gestor afirma que, atualmente estão todos parados ou fortemente condicionados. “São projetos e programas muito importantes para a construção de uma cidade e de uma comunidade ativa e saudável, e que por força destes confinamentos e dos temores que o contacto e a proximidade física provocam atualmente, estão completamente parados neste momento.

Ainda não temos uma decisão definitiva, mas a Liga Mini, os Jogos da Comunidade e as Mini Olimpíadas não se devem realizar este ano, tal como já aconteceu no ano passado. Queremos organizar o Sarau de Dança e Fitness e a Gala do Desporto, mas tudo dependerá da evolução deste novo confinamento. E outros projetos emblemáticos e de primordial importância para a comunidade vimaranense que a Tempo Livre promove regularmente, estão a sofrer um duro golpe.

“O projeto de envelhecimento ativo “Vida Feliz” passou de 1.022 participantes em finais de 2019 para 70 em dezembro de 2020, com uma taxa de desistência superior a 90%”

Amadeu Portilha, presidente da direção da tempo livre

“O projeto de envelhecimento ativo “Vida Feliz” passou de 1.022 participantes em finais de 2019 para 70 em dezembro de 2020, com uma taxa de desistência superior a 90%, o programa de promoção da atividade física, saúde e bem-estar destinado a grávidas, o “Barriguinhas Desportistas”, passou de uma média de 90 para 8 participantes; e as Férias Desportivas, programa de apoio às famílias nas férias escolares do Verão, que já chegou ater mais de 2.000 participantes, fechou o ano de 2020 com apenas 384 crianças inscritas.” Disse o presidente da direção da Tempo Livre.

A entrevista completa pode ser lida na edição desta semana do Jornal Mais Guimarães. Clique aqui.

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?