AMOR PLATÓNICO?

por ÂNGELA OLIVEIRA

Advogada

No momento em que escrevo estas linhas, não é ainda seguro antever-se um entendimento de governação. Todos estamos confusos com o baralhar das regras da democracia e esta falta de clareza política teve um efeito perverso, daqui para a frente ninguém saberá o que é ganhar ou perder eleições. Independentemente do governo que será constituído, o novo PREC (Período de Reuniões em Curso) acordou fraturas e fantasmas políticos que os portugueses do século XXI há muito tinham esquecido.

O suspense político criado nas últimas semanas, as constantes reuniões ora à direita, ora à esquerda, ora mais à esquerda, têm incitado os portugueses à velha polarização política e aos antiquados carimbos. Mais do que nunca, todos querem que o seu voto conte, e mais importante ainda, que seja interpretado com clareza. A euforia interpretativa do voto não deixa margem para os votos do centro, para o pluralismo político. Todos querem saber de que lado do pensamento político fica o PAN (Pessoas-Animais- Natureza), pois não se admite um partido que não tome posição nesta discussão. Pertencendo a uma geração pós revolução, cedo tive a certeza de que não há preocupações estanques e exclusivas do pensamento político mais à esquerda ou do pensamento político mais à direita, sejam elas preocupações sociais, económicas, ambientais, culturais, etc.

Há naturalmente ideias, valores, questões e soluções que nos caracterizam e diferenciam, mas no fundo, acredito eu, o que nos une a todos, é o amor que sentimos pelo nosso país. Não um amor platónico, idealizado, distante e descomprometido, mas um amor real, de compromisso, de cedências e sacrifício pelo bem comum. E no amor real não vale tudo! Não deveria haver necessidade de explicar a óbvia legitimidade política de um Governo liderado pelo indiscutível vencedor das eleições. Nem deveria ser menos óbvio o posicionamento no papel de oposição dos indiscutíveis derrotados das eleições. Tentar interpretar os votos conjuntos do BE, CDU e PS como votos numa única corrente, com os mesmos valores e princípios olvidando os respetivos programas e campanhas eleitorais, é tentar na secretaria, formar uma Coligação de Derrotados com ansias de poder, com o engodo da estabilidade política.

Estaremos à espera que o PCP, com a sua longa história, abandone a coerência que lhe é conhecida? Ficaremos convencidos e descansados com a perspetiva de termos no BE um partido de cariz moderado? Se fosse assim tão simples um entendimento à esquerda já não estaria o mesmo forjado e selado com garantias de um pacto duradouro? É certo que as negociações continuam, mas na premissa errada. As negociações não deviam assentar na expectativa de quem vai governar. O que seria democraticamente honesto era assistirmos a negociações tão só, e apenas, sobre condições de estabilidade. Infelizmente, a verdade é que António Costa não só não soube ganhar as eleições, como também não as soube perder.

E o impasse a que vamos assistindo, como também se tornou demasiado óbvio, resulta mais da sua procura pela sobrevivência política que a procura por uma solução estável para o país e que sirva os interesses nacionais. António Costa não aprendeu a lição de Kennedy sobre o amor à pátria e não se apercebeu que já não estamos em época de amores platónicos.

 

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