ANA RUTE MARCELINO: “ESTA É A GERAÇÃO QUE NASCE SENDO CIDADÃ EUROPEIA”

A concorrer pelo Bloco de Esquerda, Ana Rute Marcelino não tem dúvidas de que a abstenção é o principal adversário a ultrapassar nestas eleições. A defesa dos direitos laborais e a defesa do estado social estão entre as principais prioridades do partido. 

Quais são as principais ideias do partido nas Europeias?

Nós estabelecemos, no nosso manifesto eleitoral, três prioridades: os direitos laborais, a defesa do estado social e a resposta à urgência das alterações climáticas. Estes são os três eixos prioritários em torno dos quais elaboramos o manifesto eleitoral. E por quê estas três prioridades? Nós consideramos que os direitos laborais e o estado social são o melhor garante da qualidade de vida e são o que permitiu que a Europa progredisse, que a paz se instalasse na Europa do pós-guerra, que durante as décadas que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial e à criação deste projeto europeu a qualidade de vida fosse melhorada. Nós hoje vemos esses direitos e garantias, nestas duas áreas, serem ameaçados pela prioridade que tem sido dada às políticas liberais e ao capitalismo financeiro. Nós queremos que se lute pela manutenção do estado social, pela preservação dos serviços públicos e desta ideia de que todos temos que contribuir, que todos temos direito a uma vida digna, todos, mesmo em situação de doença ou de velhice, têm direito a manter a sua dignidade e a ter o apoio da sociedade e os direitos de quem trabalha são para nós um assunto fundamental. Nós temos hoje uma franja da população que, apesar de trabalhar, não consegue sair da situação de pobreza e isso deve-se à precariedade laboral, aos baixos salários e à falta de respeito dos direitos de quem nada mais tem que não o seu trabalho. O terceiro eixo que referi tem a ver com a urgência de resposta às alterações climáticas. As questões da sensibilização para o ambiente não são de hoje mas, no entanto, não conseguimos sair deste patamar das intenções. Hoje, quando estamos perante uma crise climática global, quando temos muitos jovens na rua a chamar, tentamos chamar a atenção dos políticos, que têm obrigação de tomar decisões, decisões que vão de encontro à resolução dos problemas, porque não há futuro sem a preservação do equilíbrio ambiental do planeta.

Muitas vezes esses são problemas, sobretudo a questão dos direitos laborais e do estado social, muito associados ao país. De que forma estão integrados na políticas da União Europeia?

Essa é uma ideia que é preciso desmistificar. O principal adversário de todos os candidatos nestas eleições, é a abstenção. Há cinco anos foi de mais de 65% e eu gostaria de ver esse número diminuir. Nós temos que, com todas as nossas energias, tentar contrariar essa ideia de que as eleições europeias não nos dizem respeito. É certo que há uma certa confusão institucional e que as pessoas não compreendem a União Europeia. Muitas vezes têm dificuldade em compreender como é que ela afeta as nossas vidas e é isso que é preciso mostrar, é essa pedagogia que é necessário fazer. Hoje, nos direitos laborais, como em todas as áreas, a União Europeia está presente nas nossas vidas. É certo que o Parlamento Europeu é o único órgão que é democraticamente eleito e, a 26 de maio, vamos eleger os 21 deputados portugueses que estarão no Parlamento Europeu a defender os interesses de Portugal. Eles são 21, no meio de 756, mas a verdade é que eles vão unir-se a outras forças que podem fazer valer esses direitos. Aquilo que está em jogo é o reforço de uma esquerda progressista, à qual os portugueses eleitos se possam juntar e que estejam do lado da defesa dos trabalhadores ou, por outro lado, a eleição de quem tem uma visão neoliberal e de quem fomenta valores, políticas e práticas que são diversas da que consideramos ser a defesa dos direitos laborais. Muito do que acontece nas nossas vidas, o termos centros de saúde e escolas, parte muito de fundos da União Europeia. Muito do investimento público é feito com comparticipação da União Europeia. Mesmo a crise que vivemos, e que se refletiu muito na vida das pessoas, foi fruto da forma como a União Europeia foi gerida. Nós temos de mostrar às pessoas que a UE está presente em todos os dias das nossas vidas, em todo o tipo de regulamentação, em todas as diretivas que são emanadas. Nós estamos dependentes da UE e isso não tem de ser visto como necessariamente mau. A vida é cooperação. Toda a gente sabe que o Bloco de Esquerda não é o partido mais “europeísta”, no sentido de que não achamos que esta é a melhor forma de fomentar a cooperação entre os países, mas a verdade é que estando neste projeto, queremos que seja o que de melhor puder ser.

 

“Hoje, nos direitos laborais, como em todas as áreas, a União Europeia está presente nas nossas vidas”

 

Como é que acha que os portugueses olham para estas eleições?

Fundamentalmente veem com algum distanciamento, pelos motivos que já referi. E é essa proximidade que é preciso tentar estabelecer. Eu acho que a Marisa Matias tem tentado fazer isso, tem sido incansável nos debates, na tentativa de chegar ao maior número de pessoas, no maior número de pontos do país possível. Acho que é isso que todos têm de fazer. Todos nós temos de tentar espalhar a mensagem de que a participação é importante.

Mas notam, nessas ações na rua, que há esse desinteresse?

Sente-se, sente-se que há um desinteresse muito grande. Aquilo que acontece, em parte, é responsabilidade de alguns dos candidatos, que estão sempre a trazer para o cenário nacional aquilo que deve ser a discussão sobre a Europa. Acho que há alguns candidatos que não querem discutir a Europa. Claro que a política nacional depende da política europeia, mas haverá espaço e lugar para a política nacional, ainda este ano. Aquilo que agora é importante é centrar o debate na importância que a Europa tem nas nossas vidas, no que pode estar em causa quando fazemos as nossas escolhas, ouvir o que os candidatos pretendem, que visão é que cada um deles tem da Europa, da União Europeia e o que vai lá defender. E fazermos a nossa escolha.

 

“Claro que a política nacional depende da política europeia, mas haverá espaço e lugar para a política nacional”

 

O avanço das políticas direita, que se tem notado por toda a Europa e, por outro lado, a abstenção, são fatores que preocupam o Bloco?

Eu diria mesmo que são as duas principais preocupações. Uma delas a abstenção, como já lhe disse acho que é o nosso maior adversário e a outra é o crescimento dos extremismos, quer à esquerda quer à direita, este populismo, esta visão leviana daquilo que é a vida pública, esta visão contrária aquilo que deve ser a solidariedade e a defesa dos direitos humanos.

Consideram que o contacto com os jovens é fundamental?

Temos sempre a ideia de dizer que o futuro está na mão dos jovens mas depois não valorizamos suficientemente a sua participação e, muitas vezes, as ações de campanha, os debates e a ação dos políticos não é dirigida para eles. São eles que têm de ter a noção de que a sua vida depende dos políticos que hoje elegerem. Esta é a geração que nasce sendo cidadã europeia, mas tem de perceber que isso não é um dado adquirido. O facto de já nascerem europeus pode-lhes transmitir essa ideia errada de que a União Europeia é um dado adquirido. Mas nada é um dado adquirido, a democracia não é um dado adquirido, os nossos direitos também não são, infelizmente. Esta noção de que têm de participar e tomar a vida deles nas mãos é fundamental. O candidato mais jovem nas listas é do Bloco, com 18 anos, e isso mostra a nossa forma de estar com esta faixa etária.

Quais as expetativas para as eleições?

Nós não gostamos de adiantar números, os votos são das pessoas. Nós, até ao último minuto, vamos bater-nos para ter a melhor eleição possível. Há cinco anos elegemos um deputado, a Marisa Matias, e queremos que ela volte, mas o melhor acompanhada possível. Queremos eleger o máximo de deputados, a força que vamos ter é a que as pessoas nos quiserem dar e vamos bater-nos até ao último momento para mostrar que estamos ao lado de quem precisa.

Como é que acha que a União Europeia vê Portugal?

A ideia que eu tenho é de que os deputados portugueses são muito respeitados. A nomeação de alguns portugueses para cargos europeus e internacionais revela isso mesmo. Há um facto contra o qual não há argumentos: somos só dez milhões num universo de 500 milhões. Não podemos querer ter mais força do que a que é proporcional à nossa dimensão, o que podemos e devemos é querer que todos os países, mesmo os mais pequenos, sejam igualmente respeitados e tenham voz. Nós não queremos estar na União Europeia se não tivermos voz na União Europeia.

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