ATÉ SEMPRE EDMUNDO PEDRO

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Com 99 anos, morreu Edmundo Pedro, a 27 de Janeiro. Figura singular na luta antifascista, provavelmente o combatente que mais dias passou nos calabouços da ditadura, foi preso pela primeira vez aos 15 anos, em 1933, já membro da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas. Tinha já assistido ao assassinato de seu irmão, à pancada, na refrega de uma manifestação contra o regime. Passou pelas varias cadeias de Salazar- Aljube, Peniche, Caxias-, mas foi no Tarrafal que conheceu maior sofrimento. Foi o mais jovem prisioneiro do “Campo da Morte Lenta”, onde entrou aos 17 anos, com seu pai, Gabriel Pedro, conhecido militante comunista. Ambos bateriam o cruel record de dias na “frigideira”, cela solitária onde a temperatura ultrapassava os 50 graus, entre outras torturas. No Tarrafal, viria a ser suspenso pelo PCP –que abandonaria- por ter participado em tentativa de fuga não autorizada. Nos anos de sofrimento e luta do campo prisional,  aprendeu o que os presos aprendiam uns com os outros no auto imposto “tempo de trabalho”, em áreas como a matemática, física ou alemão, consoante os conhecimentos de quem, entre os presos, podia ensinar. Devolvido à liberdade em 1946, logo se enquadrou em novas lutas, como sempre sucederia nas prisões posteriores. É assim que está no Golpe de 12 de Março de 1959, com Piteira Santos, no Golpe de Beja, de 1 de Janeiro de 1962, com Varela Gomes, e em inúmeras tentativas de conspiração. Sempre na luta, muitas vezes na prisão, sempre com a liberdade no horizonte. Uma vida inteira, sem nunca desistir, dedicada à causa da liberdade,. Um daqueles homens a quem devemos muito. Viria a aderir ao Partido Socialista e, até à sua morte, nunca mais deixou de lutar.

 

Seja-me permitido recordar uma história testemunhada com o velho combatente que dá conta do seu sentido de humor, faceta menos conhecida.

 

Numa das sempre polémicas entrevistas, Luiz Pacheco, beleguim de outras andança, também ele conhecedor das prisões do regime, por razões diferentes, dizia mais ou menos isto, que vai de memória:- Eh pá, agora ninguém lê.  Quem é que tem tempo para ler coisas como o Guerra e Paz?  Só se lia aquilo quando se ia preso, agora ninguém vai preso…ninguém tem tempo. Uma ocasião estive preso com aquele tipo do PS, o Edmundo Pedro, na mesma cela. E ele andava a ler o Guerra e Paz. Só que ele adormecia antes de mim e eu chegava lá, punha-lhe o marcador oitenta páginas à frente. E o tipo no dia seguinte comia aquilo, direitinho. No outro dia adormecia e eu punha sessenta páginas para trás. A seguir, trinta para a frente, e por aí fora. E ele andava naquilo, sempre ali, para trás e para a frente, estás a ver? -”Então o homem nunca chegou ao fim do livro?”, pergunta o entrevistador. “Não sei pá, eu saí antes dele”, rematou o figurão Pacheco.

 

Na edição das suas Memórias, Edmundo Pedro, veio falar da obra e da sua vida, a Guimarães, à Biblioteca Raul Brandão. No final, fui pedir-lhe um autógrafo no meu exemplar. A sua extrema simpatia permitiu-me perguntar-lhe: – “o  Senhor não se importa que coloque uma questão mais pessoal?” – “Faça favor”, respondeu. –“O Senhor sempre chegou a acabar o Guerra e Paz?” -“Desculpe, não estou  a perceber”, respondeu. Contei-lhe da entrevista do Luiz Pacheco. Edmundo Pedro soltou uma gargalhada bem sonora, não parava de rir e diz-me ”Isso é uma história fantástica, muito bom, muito bom, aquele Pacheco é incrível”. E ria. Depois lá me disse –“ Sabe (?), eu nunca estive na mesma cela do Pacheco, nem sequer estive com ele no mesmo estabelecimento prisional. Essa história é toda ela invenção pura. Mas não deixa de ser uma história magnífica, magnífica” E não parava de rir. “A propósito, na verdade  li o Guerra e Paz em português e em alemão”.

 

 

 

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