CANDOSO E O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO DA PRIMEIRA DIVISÃO DE FUTSAL

“O coroar de anos de trabalho” ou “o concretizar de um sonho” são algumas das expressões usadas para descrever o 11 de maio de 2019, dia em que o Clube Recreativo de Candoso ascendeu ao principal escalão do futsal português. Agora com “os pés bem assentes na terra”, a equipa de Guimarães descobriu “um mundo completamente à parte” e mantém-se viva, procurando a manutenção numa das quatro principais ligas de futsal do mundo.

Candoso e o admirável mundo novo da primeira divisão de futsal

Na edição desta semana do Jornal Mais Guimarães leia a grande reportagem sobre o CR Candoso e a sua presença entre os maiores do futsal nacional. Mais Guimarães – O Jornal, nas bancas à quarta-feira.

Posted by Mais Guimarães on Tuesday, 15 October 2019

“Nunca me vou esquecer do dia em que fomos campeões em Viseu. Chegamos a Candoso e tínhamos uma multidão para nos receber, de uma freguesia de mil e tal pessoas. Fizeram uma festa que não me sai da cabeça até ao dia de hoje”. É assim que Sérgio Abreu, presidente do Clube Recreativo de Candoso, recorda a ascensão do clube à primeira liga de futsal.

Sérgio Abreu é presidente do Candoso há quatro anos, mas já está envolvido no clube há cerca de 17. A paixão pelo clube e pela freguesia foi algo incutido por anteriores presidentes. “Diziam-me que já tinha chegado a altura de a malta nova assegurar os destinos do clube e à falta de outras pessoas que quisessem… porque não é fácil. Agora parece tudo um mar de rosas, porque atingimos um nível que nunca imaginamos conseguir, mas não era fácil ser presidente deste clube”, recorda.

“Os jogadores são um grupo unido. É esse o segredo”

Tal e qual os jogadores, o presidente do CR Candoso divide os seus dias entre a sua profissão e as horas que dedica ao clube. E onde vai buscar a motivação? “Eu e os meus colegas, que já me acompanham há muito tempo, costumamos dizer que é o amor ao clube e à freguesia que nos vai movendo”, resume. Se há quatro anos o CR de Candoso dava início à formação, atualmente, os escalões de formação incluem cerca de 120 atletas, aos quais se juntam os 20 membros da equipa de atletismo e, ainda, a equipa sénior. O presidente garante que havia a consciência de que a passagem para a primeira divisão seria sinónimo de “uma realidade completamente diferente”. “Mas isto não é uma realidade completamente diferente. Isto é outro mundo”, frisa.

© CR Candoso

Os apoios que mantêm o Candoso vivo

Segundo Sérgio Abreu, o Candoso mantém-se vivo com dois grandes patrocinadores e algum apoio da Junta de Freguesia. De acordo com Odete Lemos, presidente da Junta de Freguesia de São Martinho de Candoso e sócia do clube, a Junta contribui com o pagamento dos subsídios das inscrições das camadas jovens. “Sou sócia desde sempre, vou aos jogos sempre que posso. É uma emoção que só quem é da terra é que entende. Existe um clima que nos une”, frisa.

O espírito de sacrifício é também sentido pelo treinador do clube, José Feijão, uma das aquisições do clube para a nova época. “Pela minha experiência posso dizer que [o orçamento do Candoso] é, provavelmente, metade ou menos de metade do que as outras equipas. Basta dizer que 90% das equipas são profissionais e o Candoso é uma equipa amadora, onde os atletas vão trabalhar de dia e à noite vêm treinar. As pessoas não fazem ideia, mas isso faz uma diferença abismal”, aponta.

José Feijão é de Lisboa e passa a semana em Guimarães a treinar com a turma do Candoso. “Não é fácil estar longe. Tenho um filho com 10 anos não é fácil”, admite. Esta não é a primeira vez do técnico no principal escalão do futsal português. “Estamos a falar da passagem de um campeonato amador para um campeonato profissional, que está considerado nas quatro melhores ligas do mundo. Agora, o Candoso é mais falado num mês do que na vida toda, não tenho dúvidas disso”, aponta.

Um grupo de atletas que também é um grupo de amigos

Entre estudantes universitários ou empregados de escritório, os atletas do Candoso estão agora “na divisão onde toda a gente quer chegar”, explica José Feijão, e isso “é motivação extra”, acrescenta. Porém, há outro fator que mantém a equipa sénior unida, segundo o presidente. “Os jogadores do Candoso não são aquele tipo de jogadores que depois de saírem daqui não se falam. Saem dos jogos e vão juntos para outros sítios e são um grupo unido. Esse é o segredo para manter a equipa num bom patamar”, garante.

Paulinho Roxo, que já passou por clubes como o Sporting ou o SC Braga, confirma: “É melhor trabalhar num ambiente onde todas as pessoas se dão, do que num ambiente onde as pessoas nem se conseguem olhar. Nós, mesmo nas derrotas, estamos unidos”, assegura. Também o atleta João Abreu, nascido e criado na freguesia que representa, fala “num espírito muito acolhedor. Conhecemo-nos há muito tempo. Somos todos amigos”, assegura.

© Direitos Reservados

Os adeptos são também a força motriz do Candoso. “Trazem muito ao clube. São incansáveis. Recebo muito carinho de todas as pessoas de cá, toda a gente me conhece desde criança…”, aponta João Abreu. Paulinho Roxo garante que mesmo colegas de outros clubes “sabem das dificuldades de jogar neste pavilhão”.

Já o treinador garante ter sido acolhido “de braços abertos” na freguesia. “As pessoas aqui sabem das limitações do Candoso e acarinham o clube porque tem quase 90% de jogadores da região”, defende. Já para o presidente, “só faltava mesmo trocar a hora da missa para o pessoal vir ver o Candoso”.

Apesar das lesões e da “falta de sorte”, o Candoso sonha com a manutenção e promete ir à luta

A estreia na Liga Placard Futsal não poderia ter sido melhor para a equipa vimaranense: os pupilos de Feijão golearam o Belenenses por 7-2, com quatro golos apontados por João Abreu. Contudo, as cinco jornadas seguintes foram sinónimo de derrota, ante o Futsal Azeméis, o Benfica, o Quinta dos Lobos, o Viseu 2001 e o Leões Porto Salvo. Apesar disso, o Candoso “está na luta”, segundo o técnico. “É uma guerra extremamente difícil, mas queremos atingir a manutenção. Eu sei que é muito difícil, já passei muitas vezes por esta situação. Mas enquanto o Candoso estiver na luta…. vai à guerra”, sublinhou.

O treinador admite que a época “não está a correr muito bem, mas há clubes a quem está a correr muito mal. É extremamente difícil fazer um ponto. Um ponto aqui vale milhões. Há equipas com menores orçamentos a fazer menos pontos que nós”, ressalva.

© Direitos Reservados

A ambição reina também entre jogadores. João Abreu confessa que, apesar de terem começado bem a época e agora estarem “menos bem”, o objetivo é regressar às vitorias. “Tencionamos voltar ao que começámos. É para isso que cá estamos. É para ficar cá. Vamos voltar ao que conseguimos na primeira jornada. Vamos conseguir voltar às vitórias, que é o que importa, e com isso vamos ficar muito mais perto dos nossos objetivos”, garante. Para Paulinho Roxo, “as dificuldades aumentam, semana após semana”. “Fazemos tudo que o mister pede. Às vezes dá e outras vezes não dá. Mas essa maré de azar vai passar”, acredita.

Atualmente, a equipa conta com “um quadro clínico com muita deficiência”, com quatro jogadores lesionados, justifica o treinador. “Uma equipa com poucos recursos a nível humano, se tiver três ou quatro jogadores de fora, faz uma diferença enorme. Esperamos que recuperem o mais rápido possível, para mantermos o nosso foco: a manutenção”, frisa.

Com 37 anos, Paulinho Roxo assegura que a equipa estava consciente das dificuldades que ia enfrentar. “Sabíamos que ia passar por isso, que vinham tempestades maiores do que no passado. É uma adaptação constante, estamos sempre a pensar no próximo adversário para podermos pontuar”, garante.

“Se o campeonato acabasse hoje, era quase como ganhar a Liga dos Campeões”

Para esta estreia no mais alto patamar do futsal português, o Candoso só pensa na manutenção. Atualmente a equipa ocupa a 12ª posição da tabela classificativa, com o Belenenses e o Portimonense na zona de despromoção. “O objetivo de todas as equipas que sobem da segunda divisão é manutenção e nós não vamos fugir disso”, aponta João Abreu.
José Feijão admite que o seu maior desafio enquanto técnico do Candoso é precisamente manter a equipa na primeira divisão. “O dia mais feliz era se acabasse agora. Se acabasse hoje, tínhamos o objetivo conseguido. É extremamente difícil, eu sei disso”, confessa.

© CR Candoso

O mesmo sentimento também existe do lado da direção. “Se o campeonato acabasse agora, o objetivo estava comprido. Era quase como ganhar uma Liga dos Campeões”, brinca Sérgio Abreu. O presidente admite que houve alguma “falta de sorte e aquela tal experiência de ser a primeira divisão”. “Recuperando as lesões, a sorte poderá mudar um bocadinho”, ambiciona.

A crença é também evidente para a sócia e presidente da Junta de Freguesia, Odete Lemos. “A freguesia está tão feliz e eufórica quanto os jogadores estão. Foi um sonho concretizado. O futsal é uma tradição que vem de longe e estamos todos mobilizados. Esperamos, agora, que os resultados venham na Liga Placard”, afirma a autarca local.

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