Cavaco a ser Cavaco

Por José João Torrinha.

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Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães Quando Cavaco Silva ganhou a sua primeira maioria absoluta, era eu um adolescente a caminho dos meus treze anos, algures entre o sétimo e o oitavo ano. Já o fim do seu consulado, veio a apanhar-me em Coimbra, com o fim do curso à vista.

Esses dois mandatos preencheram, pois, uma parte substancial da minha juventude. Habituado desde pequeno a seguir as coisas da política (influência paterna) é natural que tenha ainda uma memória muito viva daqueles anos, não tanto da complexidade das medidas concretas, mas sobretudo da atmosfera política da época.

Por isso, quando ouvi o remoque que António Costa expressou a propósito daquelas maiorias absolutas, o mesmo não me suscitou sequer um levantar de sobrolho. Costa, ao dizer o que disse, foi até económico nas palavras.

A reação do ex-Primeiro Ministro e Presidente da República, essa, foi “Cavaco vintage”. A uma frase perdida no meio de um discurso, Cavaco respondeu com a artilharia toda, publicando um artigo de opinião e dando uma entrevista à inevitável Maria João Avillez. Tudo a revelar um dos traços mais marcantes da sua personalidade: o seu lado autocentrado.

Entre a primeira pessoa do singular e a primeira pessoa do plural, Cavaco sempre preferiu a primeira. Para ele o “nós” vinha sempre muito depois do “eu”. E isto que podia ser mero feitio e não defeito era muito mais do que isso e foi tendo consequências na vida dele e na nossa, pois que Cavaco sempre colocou o seu interesse pessoal à frente de tudo o resto. Se a isso juntarmos uma espécie de dogma de infalibilidade auto atribuída, aí temos a chave para percebermos o homem e a sua ação política.

Olhando as coisas por esse prisma, percebemos melhor o político que nunca se enganava e que raramente tinha dúvidas, ou que dizia que duas pessoas com a mesma informação e com a mesma boa fé chegam necessariamente às mesmas conclusões (as dele, naturalmente). Percebemos melhor a verdadeira adaga que colocou nas costas de Fernando Nogueira, quando o desmentiu em plena campanha para as legislativas de 95. E percebemos ainda melhor o artigo e entrevista recentes. Numa altura em que o novo líder do PSD precisa é de aparecer e ser protagonista, viu-se esmagado pelo espaço que Cavaco decidiu ocupar.

E isto tudo porque não foi capaz de suportar a tal frase. Como comecei por dizer, a minha memória permite-me perceber bem o que queria dizer Costa. Porque não me esqueci que durante oito anos tivemos um PM que não fez um único debate televisivo com os seus adversários políticos. Que taxava os órgãos independentes que legitimamente exerciam funções fiscalizadoras do governo de “forças de bloqueio”. Que desprezava o parlamento. Ou que mantinha a estação pública de televisão debaixo de uma tutela que hoje a todos escandalizaria.

Este não é um artigo para se fazer a análise do que foram os seus governos que, como todos, acertou e errou. Claro que sobre os mesmos tenho a minha opinião que não cabe nestas linhas. Mas visa sobretudo deixar expresso que este súbito arroubo do ex PR não é mais do que Cavaco a ser Cavaco. Ele, que conseguiu a proeza de ao fim de mais de vinte anos no exercício das mais altas funções políticas, continuar a querer excluir-se da classe dos políticos. Porque verdadeiramente nunca deixou de se considerar um caso aparte, único e infalível.

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