CONTRA O MUTISMO

por VALTER HUGO MÃE

Diz-se que uma cidade de paredes limpas tem o povo mudo. Num tempo moderno, podemos entender a imprensa como a parede essencial, a voz que precisa de estar perto, a que precisa de vir do interior de cada cidade, de cada comunidade. A efectividade de todas as ideias depende da intimidade que estabelecem com o seu interlocutor, por esta razão a imprensa local significa uma assistência às especificidades de cada lugar, de facto significa a prática da ideia.

A robustez e a liberdade da imprensa local são um barómetro da maturidade do povo. O aparecimento de um novo jornal em Guimarães é um sinal das ganas que os vimaranenses de hoje têm de se identificarem e participarem. A cidade revela a sua história e, sobretudo, reclama o presente e projecta o futuro. O aparecimento de um jornal é sempre o alargamento de uma certa conversa que, a ocorrer entre gente de boa fé, proporciona o fundamento para uma melhor cidadania, para uma verdadeira cidadania.

Tenho para mim que o exercício de uma imprensa imparcial é território de heróis, mais ainda quando diz respeito à acção local. O jornalista, quase sempre, opera no espaço que habita, tantas vezes onde tem suas raízes e família. As pressões podem ser sentidas a cada instante, no mais simples gesto, como se houvesse um cerco feito exactamente do quotidiano até então apenas inócuo, normal. De algum modo, a imprensa local é uma lupa porque observa tão perto que magnifica o mais ínfimo pormenor. Os poderes instituídos são auscultados até nos seus mais discretos humores. O jornalista vive do terreno onde procura trabalhar e ser feliz. Os jornalistas, para pasmo talvez do sistema, também procuram ser felizes. Contra o mutismo, tantas vezes perigam a sua pessoal expectativa de satisfação, perigam a oportunidade do sossego.

Falo de um território para heróis porque temo que muito poucos se mantenham imparciais e desvinculados dos compadrios de todos os tipos. O que posso desejar com o aparecimento desta nova publicação é a força para que se mantenha verdadeiramente um instrumento genuíno contra o mutismo. Para que represente a expressão da sua comunidade e, assim sendo, valha para ela e para o mundo enquanto gloriosa construção humana. A imprensa tem de ser uma gloriosa construção humana. É isso que pode acontecer exactamente agora, com este jornal.

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