D. Afonso Henriques: Um homem admirável, e um homem contraditório

Dez anos depois, “O Primeiro”, livro de Paulo César Gonçalves viu a luz do dia. No livro, de poesia, e composto por 33 textos, o escritor vimaranense, apresenta uma “visão alternativa do D. Afonso Henriques”, o primeiro Pei de Portugal, contendo uma base histórica mas abordando aspetos de que não se fala tanto, apresentado a vertente mais “espiritual do Afonso Henriques”.

© Mais Guimarães

Para o escritor, o primeiro Rei “seria um homem extraordinário em qualquer época. D. Afonso Henriques foi um homem com uma missão, que deu o corpo pelo país, que mortificou o seu corpo pelo país. Ele fez o que foi preciso, foi manhoso, ladino, magnânimo ou elegante quando teve de o ser”, diz Paulo César Gonçalves.

D. Afonso Henriques foi como uma fortaleza, mas com brechas, profundamente humanas, cheias de contradições.

“Um homem admirável” diz Paulo César Gonçalves, e um “homem contraditório, que fez muito bem ao povo”, acrescenta. “Aliás, a herança dele é toda para o povo, para as ordens hospitalares e para os pobres”, lembra o autor.

Para Paulo César Gonçalves, a imagem que passa do primeiro rei é uma imagem “muito primária”, devendo haver maiores cuidados, porque ele encerra em si uma “dimensão humana extraordinária”.

Defende o autor que, como exemplo, D. Afonso Henriques “não foi um intrépido mata-mouros”, como se diz. “Os mouros tinham medo dele, de facto, mas no campo de batalha. Fora, ele respeitou-os como poucos o fizeram, dando-lhes terras, criando bairros e fazendo pactos com eles. Nomeou também mulheres para cargos políticos, o que, há 900 anos era uma coisa admirável, tinha um médico mouro ou um homem que lhe tratava das finanças que era judeu. Era um rei congregador, tendo chegado a ameaçar abandonar o cerco de Lisboa quando os cruzados normandos, e anglo-saxões, queriam matar toda a gente. Essa humanidade naquele tempo era, de facto, admirável”, assinala Paulo César Gonçalves.

“Acho que o D. Afonso Henriques tem em Guimarães um tratamento muito futeboleiro.”

Paulo César Gonçalves

“O Primeiro” demorou 10 anos a ficar concluído, resultando de “cerca de 500 páginas entre rascunhos e pesquisas”. Foi um livro, “amadurecido”. Se tivesse sido lançado em 2012 ou 2013 “não teria a força que tem agora”, refere o escritor.

Várias vezes pensou em editá-lo, mas foi durante o primeiro confinamento provocado pela pandemia da covid-19, em 2020, que decide que é a hora de o fazer. Diz Paulo César Gonçalves que, ao mostrar o livro a várias pessoas, Ana Maria Machado, que assina o prefácio, afirmou que “O Primeiro” não poderia ficar mais na gaveta, tendo sido uma das impulsionadoras do seu lançamento.

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André Marques, jovem pintor vimaranense, com uma “maturidade estética admirável, uma coisa impressionante”, segundo Paulo César Gonçalves, assina a ilustração. Para o autor, o artista conseguiu captar muito bem a “essência do livro”. As ilustrações, “aguarelas e pinturas” como diz, são muito importantes na obra, não sendo uma extensão do livro. “Funcionam como um todo, os textos e as imagens, sendo indissociáveis”, acrescenta.

Episódios como a batalha de S. Mamede de 1128; De quando Egas Moniz se desloca à corte de Afonso VII para se entregar, com a família, com o baraço ao pescoço; A conquista de Santarém; o avanço do Rei para Lisboa e a conversão de um líder muçulmano ao cristianismo; De Martim Moniz a abrir as portas para que se desse a entrada em Lisboa; A fundação da ordem de Évora, que se transformou na ordem de Aviz, ou a ligação do Rei à Ordem dos Templários, são alguns dos momentos retratados no livro “O Primeiro”.

Sobre a obra, no seu prefácio, diz Ana Maria Machado que “recorrendo a uma meticulosa pesquisa histórica e através de uma poesia criativa e simbólica”, Paulo César Gonçalves “transporta o leitor para o século XII e envolve-o com as figuras, as culturas e as paisagens dessa época distante”. Através da sua “visão pessoal da História”, o autor “saboreou os primórdios da nacionalidade com um espírito de renovada conquista, para melhor encontrar o rumo de se ser e de se sentir Português”.

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