De volta à realidade

por Rui Armindo Freitas
Economista e Gestor de Empresas

Setembro anuncia o retomar da actividade “normal”. Apesar dos tempos serem difíceis, uma grande parte de nós tentou viver com normalidade um período estival que, como quase tudo este ano, foi também atípico. A normalidade a que regressaremos no após férias é também ela atípica, contudo deixa já adivinhar muito do que se poderá passar. A pandemia, em termos internacionais, não dá sinais de abrandamento, ao contrário da economia, essa sim, que continua a bater recordes sucessivos de contracção. As medidas tomadas inicialmente produziram efeitos. Mitigaram a taxa de contágio e permitiram o tão famoso “achatar da curva”, como ficou conhecido, que garantisse que o Sistema Nacional de Saúde não entrava em colapso. Contudo, produziu também efeitos económicos e sociais devastadores, alguns deles que, fruto de medidas tomadas pelos governos que permitiram alongar no tempo a chegada de uma dura crise que será inevitável, ainda não experimentamos. Ao longo da minha juventude e posteriormente carreira profissional, assisti já a várias crises de dimensões diferentes, com origens diferentes, algumas circunscritas a sectores, algumas circunscritas a países, algumas circunscritas a regiões, mas nunca nenhuma transversal a toda a população mundial. Apesar da minha formação académica ser em Economia, que tenta modelar e quantificar fenómenos sociais, muitas vezes recorro ao mais básico empirismo para explicar a chegada ou não de uma crise. Costumo com frequência interpelar amigos e colegas com uma simples questão, “Já sentiu alguma coisa mudar na sua vida? Já sentiu algum efeito no seu rendimento/poder de compra? Já sentiu alguma alteração no seu património? Se a resposta é não, desta vez seguramente que ainda vai sentir!” As crises têm este nome por serem ajustamentos dolorosos, que provocam ruptura na normalidade das relações económico-sociais. Se as que mencionava anteriormente permitiram que alguns de nós lhes passassem ao lado, esta seguramente não será uma delas. Desde logo porque as relações sociais estão a ser desencorajadas, paira sobre nós a ameaça de uma doença que pouco conhecemos, mas que para além dos efeitos sanitários, já mudou a forma como vivemos. Essa disrupção em si mesma já seria impactante, mas associada a uma redução de actividade económica, é a tempestade perfeita. Ainda assim, não pense o leitor que sou pessimista, prefiro apenas fazer uma análise ponderada que me permita encarar o futuro com a satisfação de saber que seremos sempre capazes como sociedade, com mais ou menos sofrimento, de, se soubermos agir em comunidade e respeito pelo próximo, ultrapassar mais esta dificuldade.

Por cá há um alerta que quero deixar às autoridades municipais e ao executivo municipal, sendo certo que muita da acção de combate dos efeitos da pandemia não dependem de si, ainda assim, o regresso às aulas, o regresso de férias e a tentativa que todos faremos de retomar as nossas actividades, por observação no que já se passou noutros países, trará com toda a certeza episódios para os quais deveremos estar preparados. Por isso, tudo o que é contingente deverá estar devidamente acautelado. As autoridades de protecção civil local a postos e apoiadas por um poder político que saiba fazer tudo os que está ao seu alcance para uma realidade dura que sabemos que vai chegar. Os mínimos desta vez não serão suficientes.

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