Discutir a floresta e não o ramo

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Em tempos de pandemia, num mundo envolto numa crise sanitária e económica sem precedentes, um evento ocorrido nos Estados Unidos provocou ondas de choque que se fizeram sentir um pouco por todo o mundo. Portugal não foi exceção. Falo, naturalmente, da morte de um cidadão negro às mãos das forças policiais. Uma morte registada em vídeo e que revolve as entranhas de qualquer cidadão de bem que tenha estômago para sequer assistir àquele ato bárbaro.

Nos Estados Unidos aquele foi, infelizmente, o enésimo exemplo de brutalidade policial que atinge com uma frequência inusitada a comunidade afro-americana e que levou milhares para as ruas em protesto. Um protesto justo. Um protesto que é mais do que um direito de qualquer cidadão, antes sendo um dever cívico que se lhe impõe. O dever de dizer basta. Que uma sociedade decente não pode pactuar com comportamentos daqueles.

Quando as manifestações alastraram à Europa e a Portugal em particular, desde logo se ouviram algumas vozes agastadas com os protestos, sob pretexto da sua desnecessidade, uma vez que “Portugal não era um país racista”. O próprio líder da oposição o veio afirmar. Daí a discussão derivou para uns cartazes estúpidos empunhados por alguns manifestantes e ainda daí para umas pichagens que apareceram nalgumas estátuas.

Tudo isto tem pelo menos um mérito: o de pôr a nu alguns dos vícios típicos neste tipo de discussão. Uns antigos e outros bem recentes.

Foquemo-nos nos que agora apareceram. Um que é mesmo típico dos dias que correm é o de, numa discussão, escolher com dedo interesseiro o nosso interlocutor. Em vez de eu estar a discutir o que é isso de um país ser ou não racista, se há ou não comportamentos racistas entre os portugueses, qual a sua dimensão e quais as suas causas, não faço isso e centro-me num cartaz empunhado por um jovem. Aquele jovem passa a ser o adversário que escolhi e isso permite-me passar olimpicamente ao lado das grandes e verdadeiras questões.

É assim que rapidamente se descentra a discussão e se passa a discutir a árvore e não a floresta. Ou melhor dito: discutimos um galho de uma árvore, em vez da floresta.

Outro vício cada vez mais frequente é aquilo que os anglo-saxónicos chamam de “whataboutism”. Para não se discutir o que se está a passar agora, invoca-se as não discussões do passado. “Onde estavam estas pessoas que agora protestam contra o racismo quando um cidadão ucraniano morreu às mãos de agentes do SEF?”. À boleia do que não se passou antes, pretende-se assim evitar que as pessoas agora se manifestem.

E se aparecem umas pichagens numa estátua então toca a descentrar a discussão escolhendo não um alvo mas um não alvo, uma vez que nem sequer se sabe quem fez as infelizes pinturas. Quando podíamos estar a ter uma discussão interessante acerca da relação que mantemos com a nossa memória coletiva; de como a celebramos; se as celebrações que erigimos em forma de estátua podem ou não ser questionadas pela mesma comunidade com vista à sua retirada, perdemo-nos num emaranhado de não argumentos que mais não pretendem do que polarizar em definitivo uma sociedade.

É pena que assim seja. Pela minha parte não faço contas de dar para esse peditório e continuarei a tentar debater a floresta, por mais que me apontem para o tal ramo.

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