DUAS IDEIAS DE CIDADE

por Tiago Laranjeiro

Economista

Tem sido frequentemente referido que a sociedade civil Vimaranense se encontra num estado de indiferença quase letárgica. Que perdeu a capacidade crítica, de refletir sobre si própria, sobre Guimarães, o seu presente e o seu futuro. Como se andasse cada um de nós preocupado com a sua vida particular, esquecendo que somos todos parte de uma comunidade, e que a vida e dinâmica dessa comunidade exercem uma enorme influência sobre as nossas vidas, sobre a nossa qualidade de vida, sobre o nosso futuro.

Hoje este espaço de opinião não versará sobre a minha opinião pessoal. Se o fizesse, talvez soasse a discurso partidário (quase um crime nos dias que correm), que quero neste momento afastar destas colunas. Reportar-me-ei a dois estimulantes artigos que saíram na imprensa local e regional nas últimas semanas.

O primeiro, de Samuel Silva, no Reflexo, parte da crítica social à comunhão pública entre os poderes político e mediático, representados respetivamente pelo presidente da Câmara e “o dono do principal grupo de media do concelho”. Passa daí, e a propósito da notícia veiculada da possível transferência do tribunal de Creixomil para os confins do parque da cidade, junto à Academia de Ginástica, para uma reflexão quanto à ausência de uma “ideia de cidade” em Guimarães – a cidade que queremos ser e construir. E à passividade e resignação com que todos nós, como comunidade, passamos a encarar este tipo de proclamações, sem discussão nem crítica. Se foi anunciado, é porque está decidido. Se está decidido, assim será.

O segundo texto foi publicado esta segunda-feira no Correio do Minho. Filipe Fontes reflete, com a densidade que lhe é característica e o conhecimento prático de quem desempenha há vários anos altas funções diretivas no Município de Guimarães, sobre “a projeção das cidades”. Uma projeção que atrai protagonismo, visibilidade, e produz “economia, residência, cultura e dinamismo”. Um protagonismo que deseja distinguir-se das demais, que procura ser “a melhor” (o autor faz uma tangente, não enunciada, à “síndrome da capitalidade”), sem que com isso se acrescente “à qualidade espacial das cidades e qualidade de vida dos respetivos habitantes”.

Uma projeção que, segundo Fontes, se plasma em três vértices: os eventos/festas, a comunicação (para formar? informar? publicitar?) e o investimento (“a cidade como investimento ou a cidade do investimento?”).

E que resulta numa sede voraz de eventos, que geram uma reconfiguração do espaço urbano como “pretexto (e contexto) ‘para que aconteçam coisas’”. Que estabelece um paradigma de vertigem de comunicação que se confunde com publicidade, que banaliza a palavra e a ação – transformando as duas num vazio. E o último vértice, que “se traduz num permanente carrossel de anúncios de investimento quando ainda são intenções, quando muitos ‘já cá estão’”.

Fontes conclui com a análise do resultado da interação destes três fatores resulta a “disneyficação” da cidade (outros chamaram, em tempos, musealização), esquecendo-se o papel da cidade enquanto “casa”. E do investimento, que nem sempre se traduz em maior conforto urbano, e nem sempre contribui para o aumento da competitividade, muito menos numa competição “pela diminuição das desigualdades”.

Eu penso que é importante todos estarmos cientes do papel que cada um de nós tem, enquanto cidadãos, no delinear do nosso futuro comum. Vivemos todos num mesmo espaço a que, de algum modo, todos chamamos casa: neste caso a nossa cidade e concelho. Hoje abstenho-me de opinar. Fica a síntese da palavra de outros, conforme a interpretei. Que, pela importância que lhes confiro, julguei mais importante e oportuna neste momento.

 

 

 

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