E, de repente, a guerra

Por Tiago Laranjeiro

E, de repente, uma realidade que julgávamos totalmente ultrapassada, materializa-se em poucos dias. A guerra bate-nos à porta. Para já, ainda não diretamente, mas por entreposto. Na outra ponta da Europa, a Rússia invadiu a Ucrânia. Uma Ucrânia que fazia um caminho de aproximação ao Ocidente, em particular a instituições que constituem a base da nossa sociedade, como a União Europeia e a OTAN. A mesma Ucrânia de onde tantos imigrantes simpáticos, trabalhadores e bem formados vieram enriquecer Portugal, na viragem do século.

E, de repente, somos invadidos pelo medo. O que (nos) irá acontecer? Enquanto tentamos evitar ser puxados para uma guerra direta com a Rússia – uma realidade que tem o potencial de total destruição mútua, pelo armamento nuclear russo e dos membros da OTAN.

E, de repente, percebemos que não percebemos o que se passa no nosso mundo. Que há decisões que ultrapassam o campo da mera racionalidade. Que ideias, ideologias e emoções ainda fazem mover países inteiros para conflitos. E que outras ideias com as quais brincávamos no Ocidente, como populismos, autoritarismos e outros ismos, têm consequências reais e materiais para a vida das pessoas.

E, de repente, começamos a sentir os efeitos da guerra. Para já, no disparar dos preços dos combustíveis, depois nos preços dos alimentos. E a inflação que já espreitava, uma realidade que a minha geração desconhece sequer o que seja, está a bater-nos à porta.

E, de repente, começamos também a pensar que, se a Rússia fez isto à Ucrânia, talvez a República Popular Chinesa possa fazer o mesmo à República da China – isto é, a China poderá sentir-se tentada a invadir Taiwan. E, se tal acontecer, o preço que Portugal pagará reação Ocidental será superior ao da guerra na Ucrânia. Afinal, temos tantas grandes empresas portuguesas dominadas por acionistas chineses.

E, de repente, deparamo-nos com censura na Europa livre. Inúmeros meios de comunicação social russos ou dominados por interesses russos foram bloqueados no Ocidente, por serem veículos de desinformação ou contrainformação.

E, de repente, deparamo-nos com as nossas contradições internas: muitos achamos que os nossos governos estão a ser frouxos no apoio à Ucrânia. E vemos alguns ocidentais, alguns dos quais organizados em instituições que fazem parte da nossa ordem política “normal”, a defenderem a intervenção militar russa, alguns afirmando abertamente que a oligarquia russa é tão válida quanto a nossa economia de mercado aberta.

E, de repente, convocamos o nosso cinismo. “Onde quer que haja culpados, não há inocentes”, ou “na política internacional não há amigos, só interesses”. E enviamos apoio financeiro, militar e humanitário para a Ucrânia, e afixamos bandeiras para aliviar a nossa consciência por termos os nossos lares aquecidos por gás que alimenta a economia (militar) russa.

E, de repente, o mundo muda. E vemos que as coisas podem sempre ficar piores do que estavam. E que há sempre alternativas para as nossas instituições e políticas. E que, muitas vezes, as coisas são exatamente como parecem: um ditador é um ditador é um ditador. E uma sociedade que se fecha está mais permeável a iterar sobre caminhos que julgávamos encerrados para a humanidade.

E, de repente, a guerra. E nós esquecemo-nos como se vive nela, e com ela.

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