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Emanuela Lopes: “O primeiro passo é aceitar a ansiedade e o medo”

Emanuela Lopes, Psicóloga Clínica e da Saúde no Hospital de Guimarães, em entrevista ao “Em casa, à conversa com…”. A entrevista está disponível na íntegra no Facebook e no canal do YouTube do Mais Guimarães.

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Mais Guimarães (MG): De que forma é que podemos tentar encarar esta pandemia e manter alguma sanidade mental? Como conseguirmos ler nas redes sociais, alguns dizem que começa a faltar já nesta altura, quando estamos com pouco mais de uma semana de isolamento?

Emanuela Lopes (EL): O isolamento pode exacerbar algumas emoções. Muitas vezes conduz ao aumento da tensão emocional e pode levar ao conflito. Ninguém estava habituado a estar 24 horas dentro de uma casa confinado ao mesmo espaço físico. Mesmo que morasse sozinho, havia a liberdade das suas escolhas, das suas rotinas. Quando vivemos em família, em casal, com os nossos filhos, pode-se gerar alguma tensão emocional significativa. Algumas estratégias são fundamentais. A primeira que destacamos é: a comunicação, que tem de ser eficaz. É importante eu falar, mas também é importante saber ouvir, tanto os nossos parceiros como os nossos filhos. Por outro lado, a questão de estruturar o dia-a-dia. Quando estamos em casa e, às vezes ao fim-de-semana, podia verificar-se, que não temos muito hábito das rotinas, tanto a questão de levantar à mesma hora, de nos vestirmos, de termos horas para o pequeno almoço. Nesta fase é extremamente importante que se mantenham as rotinas. As pessoas têm que se tentar deitar mais ou menos à mesma hora e levantar mais ou menos à mesma hora. Estruturar o dia. Por exemplo, logo a começar pelo pequeno-almoço, sentarem-se à mesa. Em termos de casal, podem discutir algumas situações que podem passar os dois enquanto casal. Ter momentos para si próprios e ter momentos com os filhos é muito importante. Dividir até questões relacionadas não só com a casa, mas também tendo em conta quem está em teletrabalho. Fazer a gestão destas coisas todas é muito complicado e as pessoas ainda estão numa fase de adaptação. Já há algumas pessoas que não estão a lidar muito bem com isto.

MG: Como sugere que aconteça o relacionamento com as crianças?

EL: Esse é um dos grandes desafios também das pessoas que nos falam. Os miúdos estão agitados, têm muita energia e esta nossa capacidade de tolerar, a própria frustração, muitas vezes, está mais diminuída, precisamente por esta questão que estamos a passar. O que é aconselhável é falar com os miúdos, explicar o que se está a passar, explicar o que é o vírus, explicar porque estamos em casa numa questão de isolamento e que não podemos sair à rua. É importante que entendam que há rotinas, que têm que estudar e ter horários específicos. Não tem que ser uma rigidez obsessiva, mas é importante que haja uma linha estruturada do dia-a-dia. É importante que os pais tenham alguns momentos próprios. Eu sei que é extremamente difícil, mas é uma das coisas que costumo aconselhar, para relaxar. As birras e esta questão de os miúdos se pegarem uns com os outros é perfeitamente normal. Não são alterações de comportamento como, muitas vezes, os pais nos perguntam. Tem a ver com a questão de estarem todos confinados num espaço há muito tempo e de também não sabermos quando é que isto vai passar.

MG: E como pode ser feita a gestão da ansiedade? Estamos todos a aguardar pelo dia em que tenhamos atingido o pico de casos com coronavírus em Portugal. Este período será certamente muito mais difícil e estamos todos um pouco ansiosos pela chegada desse momento. Como se gere tudo isto?

EL: O primeiro passo é aceitar a ansiedade e o medo. É perfeitamente normal estarmos assim: ansiosos, receosos, angustiados e preocupados. O facto de podermos infetar os nossos filhos, de estarmos preocupados com os nossos familiares e amigos. Muitas vezes transmite-se um sentimento de solidão porque estamos isolados do mundo e não podemos manter as nossas rotinas. As crises de ansiedade estão a verificar-se com muita frequência. A primeira coisa que costumamos aconselhar é que se mantenham informadas e consigam compreender que é grave o que se está a passar, não é preciso entrar numa histeria coletiva, mas sim mantermo-nos informados. Informados também não significa passar a vida a ver televisão, ou a ler o jornal, ou nas redes sociais. O aconselhável será uma ou duas vezes por dia, e que se informe sobretudo com fontes oficias: Direção Geral de Saúde (DGS), Ministério da Saúde… Também devemos manter o contacto com o resto dos familiares. É importante que utilizem mais e saibam como lidar com estas questões das videochamadas e ligar aos familiares e a amigos. Mantenham contacto com amigos e familiares. Liguem, falem não só do que está a acontecer em termos negativos, mas sim para saber como as pessoas estão. Esta rede social informal é também extremamente importante para diminuir esta ansiedade. Além disso, ter tempo durante o dia para realizar coisas que se goste e o exercício físico é muito recomendado. Também é aconselhado fazer exercício com os miúdos. Exercício físico, ver um filme, ler um livro… são atividades que gostamos de fazer e são prazerosas e também se devem incluir no nosso dia-a-dia. É também muito importante manter uma alimentação equilibrada. É importante também a questão do relaxamento e da meditação, que é difícil de se fazer. Mas para o próprio relaxamento o que aconselhamos mais é a questão da respiração. Fazermos uma respiração pausada. Já há muita informação que as pessoas podem numa pesquisa encontrar. Se tentarmos ter alguma disciplina, ajuda fundamentalmente a descer essa ansiedade. A não ter crises de ansiedade ou ataques de pânico. Se isto acontecer, tem que procurar ajudar. É fundamental procurar ajuda, para tentarmos ajudar e controlar estes sintomas.

MG: Em Guimarães estão identificados agregados familiares onde há procedimentos criminalizáveis. Têm essa preocupação de, durante este período, poderem acontecer alguns episódios nesses agregados?

EL: Essa é uma questão à qual os psicólogos estão muito atentos, as questões da violência doméstica e do abuso infantil. O que acontece é que as pessoas agora estão 24 horas no mesmo espaço físico com o agressor. É preciso estarmos atentos a estas questões e denuncia-las. Continua a ser um crime público. Não podemos esquecer que estas questões sem mantêm. A APAV criou uma linha, através da qual as pessoas podem procurar ajuda. Se já sabemos que quanto estamos 24 horas com alguém com quem não estamos habituados, se aumenta a tensão emocional, a probabilidade de ser mais agressiva verbalmente e fisicamente aumenta. Isso também com as crianças. Apelo às pessoas que denunciem os casos que saibam.

MG: O número de mortos com o covid-19 tem aumentado e irá aumentar ainda mais. Como as pessoas poderão lidar com o luto nestas circunstâncias e também com a circunstância de não fazerem uma despedida como sempre imaginaram que fariam?

EL: Isso está a ser assustador. Ainda não é a nossa realidade, mas é a realidade que vem de fora. Achamos que pode cá chegar e isso está a ser muito assustador para todos nós. A perda de uma só pessoa já por si só é catastrófica, por este vírus e por aquilo que está a acontecer. Está a ser muito difícil em termos mentais a questão deste luto que, se não for muito bem gerido, vai tornar-se num luto complicado e que pode levar a um trauma psicológico. Vivemos numa sociedade com muito rituais relacionados com a morte, funeral, despedidas… estando este tipo de questões impedidas ou, pelo menos, contidas, digamos assim, é muito difícil as pessoas fazerem esta gestão. É um desafio muito grande a nível técnico e clínico e nós psicólogos tentamos ajudar quem precisa, mas depois vai ter que ser uma das áreas onde vamos intervir.

MG: Para terminar, pedia que nos deixasse alguns conselhos para lidar da melhor forma com os próximos desafios.

EL: É muito importante sermos todos agentes de saúde publica, cumprir aquilo que nos é aconselhado pela Direção-Geral da Saúde, que é ficarmos em casa, tentarmos que este vírus não se estenda a muitas mais pessoas do que o que já é expectável nesta altura. Em casa, devemos manter as nossas rotinas, ter momentos com as crianças ter momentos também para si próprios. Se houver alguma situação em que as pessoas sintam sobrecarregadas, que não consigam gerir, procurem ajuda. Claro que não é o típico que possam ir a um hospital, a uma clínica, a um centro de saúde, não é. Mas, de facto, as ajudas online já existem. As pessoas não estão sozinhas. Os psicólogos estão no terreno. Apesar de não estarmos fisicamente com as pessoas, estamos cá para aquilo que for necessário e que todos precisem

Com Mafalda Oliveira

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