Grande Reportagem: O Albergue de S.Crispim alimenta os mais pobres na Noite de Natal

É véspera de Natal e os sinos da Igreja da Oliveira anunciam as 18h00. O nevoeiro adensa-se entre as paredes graníticas do Centro Histórico de Guimarães.

A 24 de dezembro de 2021, como terá acontecido há 706 anos, na estreita viela que liga a rua da Rainha à Tulha, os cidadãos mais desfavorecidos de Guimarães abeiram-se da porta do Albergue de S.Crispim e S.Crispiano procurando algum conforto para o estômago e o coração. Uns porque são pobres, outros porque não têm ninguém, ou porque a família está longe.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Em 1315, dois mestres sapateiros que tinham os seus ofícios nesta rua, contribuíram para a construção da Capela do Anjo, ou de S. Crispim e, junto à mesma, fundaram a Albergaria Hospital que acolhia os pobres e dava guarida aos peregrinos do caminho de Santiago.

Mais de sete séculos depois, é da entrega e disponibilidade dos irmãos da Irmandade, criada em 1786, e de voluntários, que os mais vulneráveis da sociedade vimaranense continuam a encontrar algum conforto na Noite de Consoada. Este ano foram servidas cerca de 100 refeições, mas há quem se lembre de terem já sido 600.

© Eliseu Sampaio/Mais Guimarães

Ceia de Natal servida em Take Away

Tal como ocorreu em 2020, a Ceia para os mais carenciados de Guimarães não foi servida no Albergue, e as cerca de cem pessoas que ali comparaceram foram convidadas a levar consigo os alimentos.

 “Até enerva, porque há gente que precisa, e a gente dava-lhes aqui um bocado de carinho, e não vão ter”

José Pereira

José Pereira, carrega no rosto a tristeza de não poder oferecer a “alegria habitual” a quem passa pelo Albergue, e o conforto que “poderão não ter naquela noite”.

“O que mais me custa é perceber que aqueles que têm um teto ainda levam a comidinha, chegam a casa e comem com algum conforto. Mas os que não têm vão levar a comida e não sabemos onde a vão comer”, disse ao Mais Guimarães o atual juiz de Irmandade.

Nas mãos, quem ali vai leva tudo devidamente acomodado, “como em nossa casa”, diz José Pereira, “uma ceia digna”, o bacalhau, “um bom bacalhau”, as rabanadas, o pão de ló, mexidos, e também alguns presentes doados por empresas vimaranenses, pelo Vitória e pela Câmara Municipal.

Mas, continua a faltar a alegria habitual, “o convívio naquela noite”. O juiz lembra Luís Almeida, o músico vimaranense que, de há uns quatro ou cinco anos para cá, “fazia aqui um espetáculo que era uma coisa soberba, ele era espetacular”.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Nas paredes da sala principal figuram os rostos de outros juizes da Irmandade, que ali deram também de si aos mais necessitados, que trocaram também a companhia dos seus familiares pela ajuda aos mais desfavorecidos na Noite de Natal.

José aponta-nos para o rosto do seu pai, ali na parede caiada. Também ele foi juiz, e também ele, desde miúdo e por mais de 80 anos, ali serviu a Ceia aos que mais precisavam. José Pereira fala da “herança” que o seu pai lhe deixou, que manterá como uma missão.

São agora muitos os que se oferecem como voluntários na noite de Natal, mas nem sempre foi assim: “Há uma dúzia de anos era um problema porque neste dia tudo quer estar com a sua família. Não era fácil, éramos muito poucos. Era eu, a minha família, o Dario Silva, e poucos mais”, lembra José Pereira.

“Felizmente isto começou a tomar proporções, e as pessoas começaram a saber o que era esta Ceia e hoje até temos que dizer a algumas pessoas que não, senão temos mais pessoas a ajudar do que pessoas a serem ajudadas”.

O juiz conta até ter recebido um telefonema de Barcelos, de um casal que queria ajudar na Ceia, tendo-lhes dito que “se quiserem venham, mas em termos de ajuda temos tido pessoal que chegue”.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

A azáfama na cozinha

Preparamo-nos para subir pelas escadas gastas até à cozinha, imaginando quantos pés terão pisado aquela madeira centenária.

Guiados por Dario Silva, um elemento fundamental na logística daquela noite, à direita encontramos dois homens que enchem pequenas garrafas com vinho, e ao fundo o pão, acondicionado, fresco, pronto a ser servido, nas estantes.

O cheiro à Ceia de Natal invadiu já todo o edifício. A cozinha está ao cimo das escadas, e quando abrimos as portas é como se recuássemos à infância e à cozinha dos bisavós.

Sobre a madeira que arde fugazmente vemos potes negros, gigantes, capazes de matar a fome a uma cidade inteira. Num está o bacalhau e noutro depositadas as batatas. As couves esperam ainda na mesa, porque ainda não chegou a hora de caírem na cozedura. Há vapores por todo o lado.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

“As batatas precisam de um pouco mais de sal”, faz saber um dos voluntários. “Anota aí no caderno”, acrescenta Teresa Novais, do agrupamento de escuteiros da paróquia de Mesão Frio – S. Romão.

A Dona Fernanda, que vivia no Albergue, conhecia todo o processo “de cor”. Em 2020, por causa da pandemia, já ali não esteve, na cozinha, e, em janeiro, veio a falecer. “Ela é que via estas coisas todas, o tempo de se meter o bacalhau, as batatas”, e com o falecimento dela “agora não há quem saiba”, conta Teresa.

Por isso, este ano, os “cozinheiros” decidiram anotar tudo num caderno, até para que “quando nós não pudermos estar cá, alguém possa pegar no registo e saber como preparar a Ceia, com todos os seus tempos”, reforça Teresa Novais.

© Eliseu Sampaio/Mais Guimarães

“Não há nada, nada que se compare a isto. Ninguém sabe que Guimarães tem isto na mão”

Inocêncio Paulo Moreira

Ouvem-se muitas histórias naquela noite. Entre as conversas, e as pessoas que ali estão, destaca-se o brilho nos olhos de Inocêncio Paulo, e a sua admiração pelo Albergue: “Esta é uma casa única, uma preciosidade, não há nada, nada que se compare a isto. Ninguém sabe que Guimarães tem isto na mão”, diz.

Os peregrinos, que vinham do Porto ou de Braga “e que faziam cerca de 30 quilómetros por dia, dormiam aqui. Uma casa como esta, do início do século XIV, está como estava naquela altura”, dizia de forma claramente emocionada Inocêncio Paulo Moreira, um homem apaixonado por história medieval e pelas letras.

Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal, Paula Oliveira, vereadora da ação social no município, e Miguel Pinto Lisboa, presidente do Vitória, chegaram entretanto ao albergue, e ouviam atentamente o autor do “Sameiro e a Confraria”, o mais recente livro do também escritor Inocêncio Paulo.

© Eliseu Sampaio/Mais Guimarães

Albergue voltará a acolher peregrinos de Santiago

Diz Domingos Bragança que aquele albergue, “que serviu ao longo da história para os peregrinos de Santiago” voltará a uma das suas funções originais, algo que está a ser “falado com a Irmandade”.

A Câmara Municipal, reforça o presidente, “tem apoiado” a Irmandade naquilo que por ela “é solicitado”, lembrando o restauro recente da Capela de S. Crispim.

Quanto à Ceia de Natal, o edil considera que “corresponde a um trabalho necessário”, porque “ainda hoje temos pessoas que não têm onde consoar, onde passar com as suas famílias, e esta é a casa da véspera de Natal deles”.

Uma noite que, acrescenta Domingos Bragança, “infelizmente e devido à pandemia” ainda não pode ser como noutros anos.

“Desejo que 2022 nos devolva a possibilidade do encontro e da proximidade”

Domingos Bragança
© Eliseu Sampaio/Mais Guimarães

Miguel Pinto Lisboa, o presidente do Vitória Sport Clube, destaca o “cariz social” do clube. Na visita à Ceia do Natal, diz que o Vitória “tem que estar junto com a comunidade e ajudar os mais desfavorecidos. Porque eles também são o Vitória, são a força do Vitória”.

“Fruto da pandemia, as necessidades da comunidade aumentaram e o Vitória estará sempre presente desenvolvendo cada vez mais a sua ação social”

Miguel Pinto Lisboa
© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Albergue de S.Crispim

No Albergue, que dispõe de 10 quatros e algumas áreas comuns, vivem atualmente cinco mulheres, todas com mais de 60 anos de idade. Os estatutos da Irmandade não permitem que ali vivam homens. Às mulheres nada é cobrado por ali se acomodarem, mas “cada uma tem de cuidar de si, está por sua conta”, diz o juiz da Irmandade.

Algumas das senhoras “até têm família, mas sentem-se melhor aqui, porque estão à vontade. Cada uma tem a sua chave e entra e sai quando quer. Se adoecerem, aí nós ajudamos no que podemos, mas quando já não são autónomas procuramos metê-las num lar. É um dever,” termina José Pereira.

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