Guimarães e a COP26

Por Tiago Laranjeiro

Daqui a sensivelmente duas semanas, a ONU realiza a 26ª Conferência para as Alterações Climáticas (COP26). Em 2015 chegou-se a um acordo muito importante, o Acordo de Paris, em que os países se comprometeram a encetar um caminho para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC.

O problema atual está no caminho concreto e metas específicas com que cada país se compromete para alcançar este objetivo – e essa será a questão central desta Conferência. A verdade é que, desde 2015 até 2021, a situação agravou-se, sendo agora necessário um compromisso mais firme – e mais duro – para se atingir a chamada “neutralidade carbónica” em 2050.

Na Europa Ocidental é hoje quase unânime que precisamos de atingir estes objetivos se pretendemos preservar o equilíbrio ambiental no planeta que habitamos. Mas este problema não é fácil de resolver. Uma das maiores questões prende-se com a utilização das fontes de energia: as fontes de energia tradicionais (mais baratas) são extremamente poluentes; as suas alternativas mais “limpas” (as denominadas renováveis) são ainda caras.

Se, em países mais ricos, é possível incentivar a mudança para fontes de energia mais limpas, o mesmo não acontece em países num estado de desenvolvimento económico menos avançado. Para estes países, o grande desafio para dar melhores condições de vida à população é a necessidade de um forte crescimento económico, que é feito com base num enorme consumo energético. As fontes de energia “limpas” não são uma solução barata. E muitos destes países argumentam ter o direito às mesmas oportunidades de crescimento que os países mais ricos tiveram, nomeadamente tirarem partido de recursos energéticos mais baratos, mas mais poluentes.

Do mesmo modo, a esmagadora maioria da produção industrial atual assenta em sistemas produtivos que geram desperdícios muito significativos. Pensemos nas famosas embalagens dos produtos que adquirimos quando vamos ao supermercado. Se pensarmos nos processos industriais, esses desperdícios e geração de resíduos multiplicam-se. A solução é um palavrão muito em voga nestes dias: circularidade.

O conceito de circularidade baseia-se na ideia de se repensar todo o processo produtivo, de forma a que os resíduos gerados, os desperdícios, e mesmo os produtos finais possam ter uma vida mais longa, sendo reintroduzidos na cadeia de produção e possam gerar mais valor. Não é só a reciclagem. É toda a cadeia de geração de valor ser repensada para que todo o processo gere menos desperdícios (idealmente nenhum), e todos os recursos empregues sejam reaproveitados, “renovando-se”. Este é um desafio enorme, para o qual há poucas respostas. Ainda existem poucos modelos de negócio bem sucedidos, com escala, capazes de adotar estes princípios e operar com rentabilidade.

E aqui já descemos à escala micro, na qual acredito que Guimarães poderia dar um contributo importante para o desafio global da sustentabilidade. Temos nesta região uma pujante indústria têxtil – uma indústria com uma enorme pegada ambiental. Temos também diversas instituições académicas e de investigação de relevo, a começar pela Universidade do Minho, que tem várias equipas e investigadores a trabalharem nestes temas. Também temos um amplo consenso social e político quanto à relevância da questão ambiental, que resulta na existência de organismos como o Laboratório da Paisagem, que ligam a administração pública local com as instituições de ensino superior e de investigação, com o público em geral e o setor privado. Uma canalização de esforços e recursos, públicos e privados, para o desenvolvimento aberto de inovação em processos produtivos, tecnologias e modelos de negócio mais sustentáveis poderia ter um impacto muito significativo na economia regional e na sua sustentabilidade – ambiental e económica. E assim, gerar um efeito multiplicador, com a disseminação destas inovações, a nível global. É, talvez, um sonho; mas sem sonhos, sem visão, não há mudanças concretas que sejam possíveis.

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