Hipertensão, diabetes e cancro fora de controlo

A meio do mês de março o Governo decretou a interrupção de todas a atividade não urgente no SNS, para que os serviços de saúde tivessem capacidade de responder à pandemia. Os rastreios oncológicos – cancro da cancro da mama, colo do útero e colorretal -, bem como o seguimento de hipertensos e diabéticos estiveram entre as atividades afetadas. A retoma só se iniciou, gradualmente, a partir de julho.

O Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Alto Ave, onde está inserido Guimarães, Vizela, Fafe, Cabeceiras de Basto e Mondim de Basto, acompanhou esta suspensão que ocorreu em todo o país. De 62 368 consultas presenciais, em janeiro de 2020, a queda foi para 53 589, em fevereiro, pouco mais de 34 mil, março e cerca de 10 mil em abril.




Em julho, apesar de teoricamente se estar a retomar a normalidade e de o Ministério da Saúde e a DGS falarem em recuperar as consultas perdidas, o número de consultas presenciais, no ACES do Alto Ave, ainda só tinha subido para 23 649. No primeiro mês da retoma as consultas presenciais ainda foram quase 40 mil abaixo das que aconteceram no primeiro mês do ano.

O gráfico mostra que, ao mesmo tempo que diminuíram as consultas presenciais, dispararam o número de consultas não presenciais, na sua grande maioria realizadas pelo telefone.

Estas consultas não presenciais, desde 2017, nunca ultrapassaram muito as 20 mil por mês – 26 099, em outubro de 2018, foi o valor máximo registado – em todo o ACES. Ao longo dos primeiros meses de 2020 este número começou a subir quase na mesma proporção em que decresciam as consultas presenciais.

Recorde-se que mesmo antes das medidas decretadas pelo Governo e do estado de emergência, decretado pelo Presidente da República (a 18 de março), os portugueses já tinham começado a assumir comportamentos mais cautelosos. De 20 248, em fevereiro, as consultas pelo telefone, no ACES do Alto Ave, aumentaram até 58 328, em junho.




No mês seguinte, em julho, começou a assistir-se a uma queda, mas ainda ligeira, a redução foi de menos de mil e 500 teleconsultas.

Estes números e a impressão generalizada que as unidades de saúde permaneceram fechadas levam a crer que o grosso do trabalho continuou a ser feito remotamente, ou a ser adiado. Entretanto os números disponibilizados pelo SNS (atualizados a 20 de agosto), só permitem avaliar a realidade até julho. 

Médicos e enfermeiros estão a usar os seus telefones pessoais, de outra forma o problema seria ainda maior

Esta forma de trabalhar tem limitações, desde logo o número de linhas e de equipamentos telefónicos nas unidades de saúde. O sistema não estava dimensionado para trabalhar desta forma, tanto mais que ao trabalho rotineiro somaram-se os contatos de vigilância relacionados com a covid-19. Médicos e enfermeiros estão a usar os seus telefones pessoais, de outra forma o problema seria ainda maior.

Há menos 25,5% de diabéticos com o exame dos pés realizado no último ano

Uma parte do sucesso em saúde passa pelo seguimento e vigilância e pela deteção precoce. Como é óbvio, é mais difícil vigiar ou detetar à distância. Esta dificuldade já é visível nos indicadores de controlo da população diabética e hipertensa da área de intervenção do ACES do Alto Ave.

Há menos 25,5% de diabéticos com o exame dos pés realizado no último ano, em junho de 2020 que no mesmo mês do ano anterior.




“Estima-se que cerca de 15% da população diabética tenha condições favoráveis ao aparecimento de lesões nos pés, nomeadamente pela presença de neuropatia sensitivo-motora e de doença vascular aterosclerótica”, lê-se na norma da DGS que regula a abordagem terapêutica a este problema.

O Pé Diabético é a principal causa de internamento hospitalar entre os diabéticos e é causa de “40 a 60% de todas as amputações efetuadas por causa não traumáticas”.

É por isso que é tão importante os diabéticos façam este exame com intervalos máximos de um ano. No ACES do Alto Ave a percentagem do universo dos diabéticos controlados rondou, entre 2016 e 2019, os 80% (valores para o mês de julho de cada ano). Em 2020, este valor baixou para um mínimo de 54,7%.

Há menos 18% de utentes menores de 65 anos com pressão arterial controlada

No caso dos hipertensos, outro grupo cuja vigilância também faz parte das incumbências dos cuidados de saúde primários, a diferença entre o número doentes menores de 65 anos com a pressão arterial menor que 150/90 (controlados) baixou cerca de 18%.

A proporção dos hipertensos que normalmente estão controlados (valores ao mês de junho de cada ano, desde 2106) ronda os 70%. Em 2020, só 54,5% dos hipertensos, deste ACES, estão controlados, comparando com o 72,8%, no mesmo mês do ano anterior.

Outro problema que, no entanto, ainda não se manifesta de forma visível nos números são os rastreios do cancro da mama, colo do útero e colorretal. Estes rastreios são feitos com uma periodicidade plurianual – dois em dois anos a mamografia, cinco em cinco, ou três em três a citologia vaginal e dois em dois a pesquisa de sangue oculto nas fezes -, portanto, só no final do ano é que será possível fazer o balanço do que se perdeu.




Os primeiros meses de 2020 apresentam números de adesão aos rastreios ligeiramente superiores que no mesmo período 2019, no caso do cancro da mama e colorretal, e ligeiramente mais baixo no cado do cancro do útero. Em qualquer dos casos os números as variações são muito baixas e pode dizer-se que os números estão em linha com o ano anterior.

Não é de esperar que o ano termine neste cenário. Atente-se, por exemplo que entre março e abril de 2020 foram feitas, em todo o ACES do Alto Ave, 13 mamografias, no mesmo período, em 2019, foram feitas 390. As citologias realizadas neste período, em 2020, ficaram pelas 340, quando em 2019 tinham sido 644 e, em 2018, 961.

Entre 1 de Janeiro e 30 de abril deste ano, segundo a ARS Norte foram convidadas a participar nos três rastreios 164 052 pessoas (menos 26% que em 2019) e foram rastreadas 95 465 (menos 23% que em 2019). “Os motivos de ausência estão relacionados com a evolução da situação epidemiológica da covid-19”, reconhece a ARS Norte.

“As pessoas que tinham rastreio agendado para este período de confinamento vão ser chamadas para a realização do rastreio durante os próximos quatro meses”, afirmava a ARS, em julho passado.

Considerando a situação que se vive conhece nos cuidados de saúde primários do SNS, em particular no ACES do Alto Ave, é possível que o objetivo enunciado pela ARS Norte, em julho, seja difícil de atingir.

À situação de saturação do SNS, agravada pelo aumento dos casos que precisam de vigilância ativa, devido ao aumento do número de infeções na segunda vaga, junta-se o medo de algumas pessoas e a dificuldade de recuperar contatos perdidos.

O primeiro balanço desta suspensão faz-se no final deste ano. Outro será feito a mais longo prazo, quando os problemas, pela falta de diagnóstico precoce começarem a manifestar-se.

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