Inteligência Natural!

por Carlos Guimarães
Médico urologista

As águas serenas da margem do lago transmitiam uma paz natural, uma calma que só a natureza nos seu bons momentos é capaz de transmitir. Do ar plácido de um dia de sol um pássaro surgiu e poisou na margem do lago. O bico segurava um pequeno pedaço de pão. O bicho encarou a água pardacenta e atirou ao lago a migalha graúda.

Sempre atento ao ambiente que o rodeava, concentrou o seu olhar no pão enquanto este ondulava. Nada aconteceu. O pássaro resgatou o pão e arremessou-o de novo agitando a água com o bico. Nada aconteceu. A tática manteve-se, repetiu-se, o pão foi-se fragmentando e o pássaro insistindo.

De repente um peixe comeu o pão e o pássaro comeu o peixe. Inteligência natural, estratégia, sucesso. Tudo ao natural, se não visse não acreditava (digo). Nós sabemos que o isco atrai o peixe, o pássaro também sabe.

Vamos e vimos ao espaço em onze minutos, desenvolvemos com a nossa inteligência natural algoritmos e outras artimanhas para criar a inteligência artificial, mas ainda não sabemos fazer teias de aranha. Assusta-me essa coisa de entregar às sequências de zero e um a capacidade de decidir por nós, de pensar por nós, de fazer por nós. Fico com a sensação de que estamos a entregar o ouro ao bandido, de que ficamos dependentes de uma coisa que é nada e pode fazer quase tudo (quase).

Num hospital deste planeta uma sequencia nociva de zero e um infetou todo o sistema de informação, baralhou todos os processos clínicos e de repente o “outro vírus” deixou de ser preocupação. Aconteceu pela inteligência natural de alguém com intuitos maquiavélicos, movimentos desconhecidos das peças de xadrez que foram travados.

Assusta-me pensar que um dia algo imaterial possa adquirir autonomia suficiente para gerar o caos. Sentados na nossa poltrona, Iremos continuar a assistir a factos incríveis no fantástico estrondo tecnológico que deflagra ao nosso lado e continuaremos a ignorar a inteligência do pássaro e a resistência das teias de aranha. Talvez estejamos a olhar demasiado longe e ignoramos o mundo maravilhoso que passa à frente dos nossos olhos, pior que isso, um mundo que vamos destruindo e que se ilumina cada vez mais de luz azul.

Iremos continuar a travar batalhas com vírus e microorganismos que atentam contra a nossa vida e esquecemos que o mais mortífero de todos os vírus pode ser uma tal sequência de zero e um, criada por outra sequência de zero e um, incontrolável, sem matéria e que nos pode converter efetivamente num enorme conjunto de zeros. Afinal o tal admirável mundo novo que se proclama pode ser muito pouco admirável.

Não sei bem para onde vamos, mas devemos ir à procura de algum consolo, de conforto, de um espaço onde o coração possa descansar, de um abrigo onde a alma se possa lavar, onde o corpo cansado possa cair e deslaçar-se e beber energia para que o dia seguinte possa ser um dia melhor.

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