Legislativas: de São Bento a Guimarães

Por Tiago Laranjeiro

No último fim-de-semana elegemos um novo elenco de deputados à Assembleia da República. Os portugueses decidiram confiar uma maioria absoluta a um só partido, o que não acontecia desde 2005. Concentra-se, assim, o poder no Primeiro-Ministro e líder do Partido Socialista, em vez da sede do poder estar na Assembleia da República.

É uma mudança significativa. Também nos eleitos. Partidos tradicionais no nosso sistema político e até fundadores da democracia viram a sua representatividade diminuir significativamente (CDU e BE) ou mesmo perderem-na (CDS-PP e PEV). E outros partidos recentes irrompem no panorama político como protagonistas, com propostas bastante diferentes das habituais, como é o caso da IL, e mesmo extremistas, como é o caso do Chega.

A vida política nacional não será como foi nos últimos anos. O PS deixa de estar condicionado a acordos parlamentares, e por forças de extrema-esquerda. Tem aqui uma oportunidade para moderar as suas políticas e aproximar-se da prática da sua família política europeia. E António Costa foi hábil na avaliação do momento e na colocação do discurso na campanha, conquistando apoio eleitoral aos partidos à sua esquerda para reforçarem a votação no PS.

Mas os portugueses têm sido duros na avaliação dos desempenhos das últimas maiorias absolutas ou governativas que deram ao país. Em 2009 retiraram a José Sócrates a maioria que conquistara em 2005. Em 2015, PSD e CDS-PP viram a sua votação penalizada pela governação dos anos anteriores.

Já o PSD, que acreditou ser possível vencer estas eleições, sai defraudado nas suas expectativas – estando ainda por apurar a votação dos círculos eleitorais do estrangeiro, há uma forte possibilidade de vir até a perder número de mandatos face às últimas eleições legislativas. Eu próprio acreditei e esperei que fosse possível essa mudança. Que penso acredito que teria sido benéfica para o país, dados os desafios que enfrentamos.

Mas a realidade encontra sempre caminhos para nos surpreender. E o campo político em que me integro, do centro-direita, tem de saber compreender a mensagem que os eleitores nos transmitem. Depois de anos com “poucochinhos” resultados governativos práticos, depois de uma gestão da pandemia que deixou muito a desejar, depois de vários desmandos, o PS sai reforçado. E os partidos tradicionais do centro-direita, fragilizados, não conseguindo conquistar terreno ao centro (como o PSD apostou nos últimos 5 anos), e abrindo espaço a outras forças nas imediações do seu campo político, para o Chega e IL. Para o PSD não vale a pena dourar a pílula: é preciso perceber o que correu mal, e como pode o partido reencontrar-se com a sua identidade e autoimagem, do “partido mais português de Portugal”, do grande partido reformista do país. E como conseguir, dentro da sua matriz, responder aos anseios dos portugueses, da classe média urbana trabalhadora às elites intelectuais, dos líderes empresariais aos trabalhadores do setor primário do interior.

E para Guimarães? O que nos trazem estes resultados eleitorais para o plano local? Trazem responsabilidade para Domingos Bragança. O atual executivo foi eleito há quatro meses, com um ambicioso programa de execução de projetos. Com um governo absoluto da mesma cor política, não há desculpas: os meios estão todos acessíveis para executarem tudo o que se propuseram. Já agora: passaram 100 dias de mandato deste executivo. Já é tempo de começar a mostrar o que vale, e concretizar o que propôs aos Vimaranenses.

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