Liberdade?

por Carlos Guimarães
Médico urologista

Existe demasiado ruído acerca dos medos que gravitam à volta da liberdade. Medo que se me afigura inapropriado sobre temas fundamentais como a liberdade ou democracia. Não me refiro a aspetos pontuais e particulares, mas à liberdade na sua verdadeira grandeza, aquela que nasceu com os cravos, aquela que a todos pertence e que alguns querem apropriar para si. Quem nasce e vive em liberdade jamais permitirá que a mesma lhe seja roubada, porque no fundo as pessoas são os verdadeiros donos da liberdade. Por muito brando que seja o povo, não o façam tão ignorante porque em matéria de liberdade, o povo sabe o que quer. Por isso esqueçam lá os discursos e as escritas que se desenvolvem à volta dos perigos e ameaças à liberdade e democracia.

Todos sabemos que a prepotência existe, que os corvos estão poisados nos candeeiros de rua mas os corpos ainda mexem. Todos sabemos que somos muito mais livres na aceitação do que que na contestação. Quando contestamos, exercemos o nosso direito de liberdade de uma forma mais real e contundente, sem medo. Quando aceitamos e queremos contestar, acobardamo-nos numa qualquer conveniência que atenta contra a própria liberdade. A liberdade não é gratuita, conquista-se, perde-se por vezes, mas não se evade, ela existe para ser reconquistada.

Observando o mundo que nos rodeia, verificamos que ficar quieto é uma estratégia mais segura do que ser irrequieto. Aceitar, gasta menos energia do que questionar, gera menos revolta, mas não evita que nos apontem o dedo. As aves quietas no ninho, paralisadas, escapam ao olhar atento do predador, mas essa quietude faz parte do grande plano da sobrevivência. Toda a quietude deve fazer parte de um plano qualquer que nos possa fazer voar, seguir em frente, enfrentar perigos, conquistar liberdade e com ela criar vida, vida nova. Aconteceu há 47 anos atrás, aconteceu quando entramos pelo mar adentro enfrentando as vagas, os monstros e o desconhecido, acontece quando saímos do conforto amordaçado e nos colocámos ao alcance das balas e evitamos o seu trajeto. Foram desenhados planos para nos colocar no caminho, foram gravados na coragem e inteligência, mas quase meio século volvido depois do último grande salto, parece que agora não temos plano nenhum. Temos uma espécie de rascunhos escritos a lápis em que a borracha e a grafite lutam quase em pé de igualdade, qualquer coisa parecida com as nossas vidas nos momentos em que nos sentimos perdidos. Se não temos uma estratégia reduzimos a hipótese de falhar, mas não honramos aqueles que há milhares de anos atrás se levantaram para libertar as mãos e com elas criar e construir formas para enfrentar os predadores e vencer. Se assim não fosse continuaríamos a subir e a descer árvores, a grunhir em vez de falar, o planeta seria mais verde, mais equilibrado, com mais futuro, mas eu não estaria aqui a escrever nem tu a ler as minhas palavras.

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