LONTRA “NÃO É SURPRESA”, MAS PODE APROXIMAR A COMUNIDADE DAS MARGENS DO AVE

Transmitir conhecimento para proteger e valorizar as Charcas de Três Moinhos, uma zona húmida do Ave, em Castelões é um dos objetivos do projeto “Lagoas e charcas do rio Ave”. Investigadores detetaram a lontra como fauna utilizadora do local, mas realçam que “não se trata de uma surpresa”.

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A população estava curiosa e lançava a dúvida, que agora ficou desfeita. Alguns rumores apontavam para a existência de uma lontra no Rio Ave, em Castelões, e uma saída de campo por parte de investigadores do Laboratório da Paisagem confirmou a lontra como parte da fauna utilizadora daquela área. Tradicionalmente esquiva e difícil de fotografar, o mamífero foi detetado a partir da análise de excrementos, mas não foi a única deteção nesta saída de campo. Esta ação, no âmbito do projeto “Lagoas e charcas do rio Ave”, encontrou também vestígios que apontam para a presença da gineta e da raposa. Trata-se de uma descoberta enquadrada “num contínuo”, de um projeto que visa comunicar ciência e aproximar as populações às margens do Ave.

Mas o que é o “Lagoas e charcas do rio Ave” e o que procura? “É um projeto de valorização ambiental, com enfoque no valor natural de relevância de Castelões, como as Charcas de Três Moinhos, e desenvolvemos ações em prol da valorização de território desta zona húmida com valor científico e pedagógico”, sintetiza Ricardo Martins, investigador e responsável pelo projeto. Trata-se de um projeto do Laboratório da Paisagem e foi apresentado como candidatura ao Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e da Transição Energética, no âmbito do concurso “Educarte: Educar para o Território”, focando-se na área geográfica das freguesias de Arosa e Castelões.

Educar é uma das palavras de ordem desta iniciativa. Sublinhando que não se trata de “investigação científica pura e dura”, mas um projeto de “participação comunitária da população interessada”, o investigador ressalva que embora a lontra seja “um animal pouco provável”, não se trata de uma surpresa e que surgiu a partir de uma das ações de reconhecimento da área por parte dos investigadores. “Basta olharmos para os concelhos e localidades periféricas: em Famalicão tem em pleno centro urbano, no Parque da Devesa, na Trofa, em Ponte de Lima ou nos rios Cávado e Lima”, afirma.

Uma fábula na cidade

Tendo a participação comunitária e abertura como uma das principais bandeiras, o projeto vai recebendo alguns testemunhos e a descoberta ocorreu de forma natural. “A questão da lontra surge motivada da curiosidade da população e nossa para tentar perceber a fauna utilizadora da área. Tínhamos ouvido uns rumores e decidimos verificar numa das saídas de campo. Recolhemos três excrementos, três amostras que pretendiam confirmar fauna terrestre, que foram enviados para um laboratório credenciado”, explica Ricardo Martins.

As descobertas desta saída de campo, “que confirmam três espécies interessantes” vão ser publicadas na forma de um guia que visa identificar a fauna utilizadora da área, já que um dos pilares do “Lagoas e charcas do rio Ave” é comunicar e aproximar a população. E é este diálogo e comunicação entre o projeto e a comunidade que ajudou a detetar as espécies. “O desenho é nosso, mas o projeto é aberto, não é um processo fechado. A lontra surgiu como rumor e dissemos que íamos recolher alguns indícios”, lembra.

© Laboratório da Paisagem

A saída de campo revelou também outras espécies como integrantes da fauna utilizadora daquele local: a raposa e a gineta. A raposa “é um animal longínquo para muitas pessoas”, já que mesmo nas periferias de Guimarães existe a sensação que “se vive numa cidade”. Na ótica do investigador, a ideia da existência de uma raposa tão perto “pode parecer saída de uma fábula”. Mesmo a deteção da gineta pode ser um ponto de partida para perceber como se mexe este mamífero com hábitos noturnos.

A lontra-europeia é comum em Portugal. A informação disponível afirma que não tem nenhum estatuto de vulnerabilidade em território nacional. Para lá da fronteira portuguesa, o caso muda de figura: em Espanha tem estatuto de vulnerabilidade. “Em Póvoa de Lanhoso existe, é um espaço de naturalidade com pouca pressão urbana. A lontra pode caminhar 20 quilómetros na linha de água”, enquadra o investigador. A descoberta não é, portanto, surpreendente, mas pode contribuir “para aproximar as pessoas” da margem do Ave.

Oficinas para aproximar a comunidade

Estas deteções surgiram a partir da intenção de inventariar a flora e fauna existentes nesta área, mas o projeto apresenta mais iniciativas e ações que têm vindo a ser desenvolvidas com vista a aproximar a população das margens do Ave. É, por isso, importante contextualizar esta descoberta nas restantes iniciativas desenvolvidas pelo projeto, que conta com oficinas e sessões para aproximar as pessoas de uma área com carga simbólica para a população próxima. “A Charca de Três Moinhos tem uma forte identidade territorial. As pessoas identificam-na como algo emblemática. Precisava de alguma transferência de conhecimento científico. Usar esta área acarinhada para comunicar valor científico”, considera o investigador. Trata-se, no fundo de “proteger ao transmitir conhecimento.”

Para isso, vão sendo desenvolvidas oficinas e outras atividades que visam transmitir à população interessada a importância da galeria ripícola ou o valor e a função da vegetação para a vida debaixo de água. Nestas sessões há uma aproximação com a população, havendo sempre tempo dedicado à prática e ao contacto com o meio ambiente. O projeto pretende sensibilizar também para a preponderância de agir localmente em defesa do território. “Devemos proteger valores globais, mas podemos fazer a diferença no nosso raio de ação”, considera o investigador.

Uma das últimas sessões contou com a presença de pessoas provenientes de locais para lá dos limites do município: “Fizemos uma ação em sala e descemos até as charcas e aplicamos técnicas de controlo de espécies invasoras, o desgaste da acácia, arranque da acácia juvenil, remoção de pinheirinha.”

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