NÃO PODEMOS PERDER A GUERRA DA ALEGRIA E ESPERANÇA

por ALVES PINTO

Ir ao Cinema, sendo a expressão mais comum para ir ver um filme, terá certamente ressonâncias diferentes no que à memória individual respeita.

Pessoalmente, a primeira vez que me recordo de ir ao cinema, foi ao Teatro Jordão, quando era um miúdo de escola primária e andava a aprender as primeiras letras.

Do que em mim permaneceu dessa experiência iniciática, mais do que o filme, Marcelino Pão e Vinho, foi a sensação de entrar num universo imenso, cuja dimensão eu não podia abarcar através do meu pequeno olhar de criança. E se o cinema cedo se me apresentou como algo de fascinante e misterioso, creio, ainda hoje, ter sido visto em salas que eram verdadeiras catedrais da 7ªArte, contribuindo com a sua grandiosidade para a transcendência do espectáculo cinematográfico.

Nas minhas incontáveis idas ao cinema, mesmo quando ia acompanhado, confesso que vi os filmes solitariamente (apenas balbuciando, de quando em vez, alguma palavras a que a emoção me obrigava). A relação com a Arte tem a sua própria intimidade, o seu silêncio, e, pelo menos para mim, não é facilmente verbalizável (e talvez só o seja para os poetas…)

Sempre procurei nos filmes não a verosimilhança, mas a outra verdade, que é a verdade artística. É isso que me faz permanecer, sentado na cadeira, como não querendo interromper as sensações que do filme emanaram.

Não tendo construído a minha cinefilia somente em Guimarães, não posso contornar as salas que mais alimentaram o gosto pelo cinema dos vimaranenses: O Teatro Jordão (1938/1995) e o Cinema São Mamede (1971/2006).

Dos filmes que fui vendo, ainda muito jovem, no Teatro Jordão, guardo aquele que ainda é hoje uma das obras-primas de John Ford, O Homem que matou Liberty Valance. Gostei dele aos 12 anos quando o vi pela primeira vez, e, muito mais tarde, com mais maturidade e cinefilia acumuladas, o pude compreender melhor.

Por vezes, fico com a sensação de que se perdeu alguma inocência do espectador, pois recordo, ainda jovem, que a partir da plateia se ouviam gritos de “cuidado!”, avisando o artista (não havia heróis, muito menos super-heróis) do perigo iminente, logo seguido de palmas, por o artista ter visto o bandido a tempo!

É verdade que os ditos da plateia nem sempre eram “oportunos”, dir-se-á também, que havia, e é certo, menos instrução, no entanto, hoje e à distância do tempo, as pipocas e a sua audível mastigação parecem-me menos interessantes (cinematográfica?) do que algumas das expressões das plateias de então. Não sei se se ganhou compostura, ou se se trata apenas de alguma “boçalidade mais contemporânea”.

Não cabe nesta curta crónica a referência a muitos dos filmes nucleares na minha formação cinéfila, por isso, opto por referir um momento único na minha vida de espectador de cinema: A inauguração do Cinema São Mamede, em 24 de Junho de 1971!

A arquitectura da sala, o conforto, a qualidade da projecção e do som, a simpatia dos muitos funcionários da sala, deixaram-nos a todos com a sensação de que a cidade tinha ganho uma outra grande sala.

Os dirigentes de então do Cineclube de Guimarães compreenderam-no, e em Dezembro do mesmo ano, as sessões cineclubistas passaram para o São Mamede.

De salientar que no início dos anos setenta já tinham começado a aparecer as salas-estúdio, e, assim, o São Mamede torna-se na última grande sala (900 lugares) a ser feita no país!

Com a iniciativa de Bernardino Jordão de criar o Teatro Jordão e de Eduardo Marques Correia de fundar o São Mamede, resultaram os projectos de maior longevidade de exibição de filmes desta cidade.

Foi nestas duas salas que vi ou revi, alguns dos filmes da minha vida: A Palavra, de Carl Dreyer, Manhattan, de Woody Allen, Armarcord, de Federido Fellini, Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, entre muitos muitos outros.

Desses, devo referir o grande filme de Sam Peckinpalh, A Quadrilha Selvagem, não apenas pela qualidade intrínseca da obra, mas também pela excelência das condições de projecção em 70mm, no Cinema São Mamede.

Assisti, noutras salas como o Coliseu do Porto ou o Monumental em Lisboa, a sessões no mesmo formato, no entanto, nenhuma foi tão impressiva como esta. Para quem nunca tenha visto, uma imagem em 70mm é feita a toda a largura da boca de cena, no caso do São Mamede de parede a parede. Esmagador!

Fiquei com a sensação, que o tempo confirmou, que tinha começado o fim de uma forma de ver cinema. Para mais, A Quadrilha Selvagem, é também sobre o tempo crepuscular do chamado oeste selvagem com salteadores, que embora familiarizados com a violência permanecem teimosamente num tempo que já não é o seu. Há nestes trágicos personagens algo perdidos, uma certa dignidade, algo de romântico.

A cinefilia, se calhar, é isso mesmo: um acto de romantismo.

E enquanto acto de paixão, poderá ser outra coisa?

Assinatura

Carlos Mesquita

Presidente da Direção do Cineclube de Guimarães

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