O PRESIDENTE E A FÁBULA DO ESCORPIÃO

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Para quem nasceu com o 25 de abril, a figura de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido uma presença constante no panorama político e mediático português. Dos tempos de diretor do semanário Expresso não guardo qualquer memória, mas lembro-me bem da campanha para a Câmara de Lisboa, em que protagonizou momentos singulares como um célebre mergulho no rio Tejo.

Lembro-me ainda do seu consulado como líder do PSD, marcado por dois referendos que “impingiu” a Guterres e pelo estrondoso fim da chamada “Alternativa Democrática”, em rotura com Paulo Portas.

Claro que o papel que catapultou Marcelo para onde está hoje foi o de comentador, primeiro na TSF e depois nas televisões, onde beneficiou de algo então inédito neste tipo de coisas: tempo de antena, em prime-time, sem contraditório, domingo após domingo, ano após ano.

E nisso, há que dizê-lo, Marcelo era um mestre. Um comunicador nato que prendia o telespetador, convencendo-o de que aquilo que estava a acontecer era pura análise política. Verdadeiramente, nunca foi. Marcelo, na sua prédica dominical, fazia efetivamente política. O truque era fazê-lo sem parecer que o fazia, coisa em que se tornou um ás.

Dele se dizia que era o criador de factos políticos por excelência. E que por vezes chegava a criá-los do nada, como uma famigerada história sobre uma vichyssoise parece comprovar.

Quando se candidatou a Presidente da República, muitos portugueses (onde me incluo) tinham tudo isto presente e nem toda a bonomia do mundo os faria esquecer quem era verdadeiramente Marcelo. Porque há coisas que, por mais tempo que passe, não mudam. E por isso, não teve o meu voto.

A verdade é que Marcelo Presidente foi uma surpresa. Se há sempre coisas que se podem criticar (acima de todas a banalização da palavra do Presidente) o certo que é que o mandato foi estruturalmente inatacável. Foi-o a um ponto que Marcelo até perdeu apoiantes de entre a sua família política. Não são poucas as pessoas de direita que conheço que não se limitam a não apreciar a sua ação, mas que lhe ganharam verdadeira antipatia.

Percebe-se porquê. Numa época de enorme polarização pós-troyka, Marcelo recusou entrar na trincheira. Elegeu a descrispação e a estabilidade como alfa e ómega da sua ação, o que soou a ingratidão para alguns que antes lhe tinham dado o voto.

Muitos socialistas acabaram, por isso, por fazer o que nunca antes tinham imaginado: votar nele. Pela parte que me toca, digo-o sem problemas, não o fiz. O meu lado cético levou a melhor e nunca me convenci de que o homem tivesse efetivamente mudado. Confiei na fábula do escorpião: mais tarde ou mais cedo, a sua natureza havia de vir ao de cima.

Chegados ao momento atual e ao discurso do PR na tomada de posse do novo Governo, aí temos o velho criador de factos políticos. Do nada, Marcelo centrou toda a atenção mediática num “não assunto”. Num momento em que o foco devia ser todo dedicado ao momento singular que vivemos e à forma de como com ele lidamos, o PR pôs toda a gente a teorizar sobre algo de hipotético e que sempre estaria a anos-luz de distância (que é tudo o que em política ultrapassa o horizonte de alguns meses).

Por uma vez, os céticos foram vingados. A questão é se não continuarão a sê-lo ao longo dos próximos quatro anos. Prestemos atenção, pois, ao ferrão do escorpião.

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