O que eu não quero dizer

Por José João Torrinha.

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Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães No passado fim-de-semana, queria fazer uma publicação numa rede social, partilhando um artigo que achei particularmente feliz sobre determinado assunto. Na minha partilha, comecei por escrever: “spot on”. Depois apaguei. Eu, que sou crítico do uso e abuso de anglicismos que por aí campeia, estava a cair no mesmo erro. A correção não foi melhor: “na mouche”. Sem dar por ela, tinha substituído um anglicismo por um galicismo. Que estupidez, pensei e lá coloquei um “em cheio”.

Este episódio fez-me recuar no tempo até aos bancos do Liceu e às aulas do Dr. Marques Mendes. Para quem não saiba, o Dr. Marques Mendes (que nada tem a ver com família homónima de Fafe) foi professor do Liceu de Guimarães – mais tarde Escola Secundária Martins Sarmento – durante muitos anos.

Quando me deu aulas estava mesmo no final de uma longa carreira, de que falava com orgulho e que inclusivamente o tinha levado a passar por universidades em Itália e em França. Entre muitas idiossincrasias, que não cabem neste texto, estava o horror que o mestre tinha por estrangeirismos de toda a sorte. Se existe palavra em português, qual a necessidade de importar? Mesmo palavras que já estavam perfeitamente incorporadas no português corrente eram evitadas por ele. Não dizia “abajur”, dizia “quebra-luz”. Não dizia “vitrine”, dizia “mostruário”.

Há até uma história segundo a qual um dia teria ido a uma loja e dito à funcionária que procurava “um pauzinho para pintar os lábios de vermelho”. “Ah, o senhor quer dizer baton”, disse ela. “Não. Isso é justamente o que eu não quero dizer”, respondeu ele de pronto.

Não vou tão longe quanto ele. Mas se hoje estivesse entre nós, o insigne professor viveria em estado de horror permanente. O uso de anglicismos passou de fenómeno normal na evolução de uma língua, para uma parolice sem nome que nos interpela a cada passo.

No mundo dos negócios e do direito, então, tornou-se numa coisa aflitiva. Aí não se fazem videochamadas. Faz-se uma “call”. E se se quer marcar a dita, é preciso ver se temos “slots” na nossa agenda. No meu caso, a malta do “legal” e especificamente do “corporate” terá que falar com o da “compliance” para ver se se acertam as coisas. O ideal é falar desde logo com o “head” porque assim as coisas se resolvem mais rapidamente. Isto feito, manda-se uma mensagem “asap” (“as soon as possible”) contendo as iniciais FYI (for your information) para que toda a gente fique a par (alguns dirão “up to speed”).

Por estes dias, vinha a ouvir na rádio o Professor Bacelar Gouveia que falava do absurdo de existirem aulas de direito a serem dadas em inglês aparentemente por professores portugueses a alunos portugueses! E lembrei-me no inenarrável fenómeno de algumas faculdades portuguesas se chamarem hoje “School of Business and Economics” e coisas que tais.

Não me interpretem mal, eu acho que a língua é uma coisa viva e percebo que, num mundo cada vez mais globalizado seja normal que elas evoluam recebendo constantes contributos (quase que disse “inputs”) de outros idiomas.

Mas uma coisa é isso e outra é usar palavras e expressões em língua estrangeira só porque sim, porque dá um ar moderno e tecnocrata, quando para as mesmas palavras e expressões o português chega e sobra.

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