O regresso à gaiola

por Carlos Guimarães
Médico urologista

O Natal e a entrada no novo ano são passado. Deu para ver que o relaxamento e a festa culminaram em comportamentos inapropriados nestes tempos difíceis de pandemia. Os estilhaços dos “fogos de artifício” já nos entram na carne. O sangue já escorre. Sabíamos que iria acontecer. Espanto e estupefação só para alguns. Os sapos engolem-se vivos e a espernear. Que valor têm as afirmações vagas e destituídas que proclamam certezas numa era prenhe de incertezas? Nós não mandamos, quem manda é o vírus, nós permitimos que seja ele a mandar. E o frio que arrepia as estrelas, chegou para piorar a situação. Desenganem-se os aflitos que julgam ver a luz na ponta da agulha, não vai acontecer. A tarefa é gigante, teremos um ano pela frente com poucas diferenças em relação ao ano anterior. Até que o tempo aqueça, poucos poderão respirar aliviados, muito poucos. Temos de entender que o futuro continua a depender de nós e dos nossos comportamentos, mas já sabemos que isso não chega, temos de virar a página da pedagogia e encarar a página da força, o único meio para combater o egoísmo. Contudo há perigos novos à espreita. As mutações acontecem e há dados novos que comprometem os nossos esforços e o empenho da ciência. As novas estirpes do vírus surgem porque nós criamos as condições favoráveis. Cada novo contagio é uma oportunidade para a malandrice do vírus. Quando nos expomos, arriscamos a nossa vida, a vida dos que nos são próximos, e oferecemos novas oportunidades para que o vírus possa mudar. Está a acontecer e preocupa. Com a imensidão de contágios a nível planetário ocorrem biliões de oportunidades diárias para que o bicho se fortaleça e nos possa tramar ainda mais. Ele não tem sentimentos, nós temos, ele não tem juízo nos temos, ele é egoísta, nós também e não deveríamos, ele está um passo à nossa frente.

Todas as noites esperam manhãs com sol. As manhãs devem nascer nas coisas boas. As coisas más acontecem por si, as boas dependem sobretudo dos nossos movimentos e do amor que colocamos nelas.

As luzes vermelhas estão acesas e as sirenes começam a tocar. Indesejáveis, expectáveis, evidentes. Tal como o frio e o inverno que veste sete camadas de roupa a velhinhos cuja reforma se esgota no consumo de um aquecedor. Preocupa ver a multiplicação e a escalada do caos nos hospitais, nada surpreendente. Preocupa saber que a malha já esticou tudo o que tinha para esticar. Preocupa saber que a partir de agora vai romper. Preocupa que estejam tão estupefactos com o número 10.000. Preocupa, mas não podemos virar a cara à luta e temos de acreditar que somos capazes de fazer melhor, não temos alternativa.

Há sacos de plástico com corpos frios e nus que se amontoam. Há gente perdida num labirinto com saída escondida. O inferno que nunca se escondeu planta-se à nossa frente e não o queremos dentro do nosso campo de visão. Cada dia de inação mata às dezenas, só nos resta voltar à gaiola, houvesse lucidez, inteligência e coragem e já lá estaríamos. Não há outro modo de fazer melhor.

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