A Origem

por Carlos Guimarães
Médico urologista

A História levou-me a descobrir o caminho. Escreve-se por aí que o corpo apóstolo Tiago, após o ser martírio e morte, embarcou e percorreu o oceano até atingir a foz do rio Ulla que subiu até Iria Flávia. Aqui, as suas águas deixaram de ser navegáveis e os restos mortais do apóstolo foram levados por terra até Compostella. Também se escreve por aí que um dos Caminhos de Santiago se percorre por terra ao lado do trajeto percorrido pelo santo ao longo dos contornos do Mar de Arousa.

Estávamos numa semana de junho em que o feriado de quinta-feira oferecia os dias necessários para meter os pés nesse caminho “desconhecido”. Dizem que os Caminhos de Santiago abrigam sempre histórias para contar, é bem verdade. Ribeira, uma pequena vila piscatória no Mar de Arousa foi o ponto de partida, por ali passou a barca. Logo que a porta do carro se abriu sentiram-se aqueles sublimes perfumes do mar que a manhã precoce tinha para oferecer. Convenci-me que ao colocar os pés no chão, logo as setas amarelas surgiriam para me orientar a caminhada. Não aconteceu. A manhã transparente de sol aberto revelava sítios encantados junto à costa rendilhada daquelas rias abençoadas. Os passos somavam-se a descontar os longos quilómetros que tinha pela frente, mas o farol das setas amarelas continuava apagado. Nada que me preocupasse. Sentia-me bem e orientado na direção que tinha de tomar apesar da inexistência de sinais. De repente, um carro parou no outro lado da estrada e dele saiu um homem que apressadamente se plantou na minha frente. Pediu que esperasse ali. A mochila aos ombros e a concha de vieira dependurada falavam por si. Fiquei uns minutos intrigado enquanto o desconhecido falava ao telemóvel. Rapidamente um outro veículo chegou e dele saiu um outro homem com ar afável e sorridente. Apresentou-se, Manuel Marino Nin, Fundador Asociación de Amigos del Camino de Santiago do Barbanza. A Orixe. Rapidamente me explicou quem era e que o caminho não se encontrava assinalado e que seria impossível fazê-lo sem a sua ajuda. Perguntou-me intrigado como fora ali parar. Expliquei a História. Sem me aperceber, passou-me o telemóvel para que uma jornalista de um periódico galego me fizesse algumas perguntas para um artigo que sairia no dia seguinte. Em poucos minutos ficamos amigos e o Manuel forneceu-me todas as indicações para encontrar e seguir o caminho. Avisou-me que era bem mais longo do que pensava e tinha razão. Fomos trocando informações ao longo de todo o trajeto e fiquei a saber que também era aficionado do nosso Vitória. Lá me fui no caminho certo segundo as setas digitais fornecidas pelo Manuel. Subidas, descidas, aldeias, lugarejos, bosques, campos, cobras, cruzeiros, igrejas e sol, muito sol. O cheiro do mar foi sendo substituído pelo perfume da flor dos castanheiros. Tudo o resto são silêncios e conversas, dores no corpo que mal se sentem e uma leveza no espírito que faz ignorar o peso que transportamos nos ombros. Podemos definir este estado de muitas maneiras, eu chamo-lhe bem-estar.

Os Caminhos de Santiago reservam sempre histórias para contar. Esta história não acaba aqui, terá novos capítulos tão surpreendentes como a história em si mesmo. Um destes dias partirei de novo para me encontrar com o Fundador, para que juntos possamos pintar de amarelo as setas da Origem.

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