Os jovens e a Liberdade: os valores de Abril ainda estão vivos?

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O Mais Guimarães falou com três jovens vimaranenses sobre o 25 de Abril e os valores conquistados com a revolução dos cravos. Qual a importância da data para as gerações mais jovens?

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Eduardo Fernandes, 23 anos. Presidente da Juventude Social Democrata de Guimarães

Mais Guimarães (MG): Os valores de Abril ainda vivem nas gerações mais novas?

Eduardo Fernandes (EF): Não. Genuinamente, não. Foram-se perdendo. A minha geração é já muito distante à data, por isso não é de estranhar que os valores não vão passando. Acho que conseguimos respeitar e manter, mas não lhes damos tanto valor. Agora, talvez sim, já que não podemos sair à rua. Temos lutas preocupantes do emprego, da emancipação jovem, algo que não conseguimos fazer em Portugal porque um jovem demora imenso tempo a sair de casa. A luta da educação. A nossa economia não é capaz de gerar empregos com a formação que temos. São lutas da nossa geração.

MG: Isso pode levar à aproximação de alguns jovens de ideologias extremistas?

EF: Isso preocupa-me muito. Começa-se a ver cada vez mais jovens a ingressarem por extremos. Porquê? Não sei explicar. Talvez por ser mais fácil, talvez esses partidos tenham soluções de forma muito rápida todos os problemas do mundo. Ingressar nesse tipo de ideologias enfraquece o centro político. Pode criar fissuras muito grandes naquilo que é a política portuguesa e não só. Nós temos de perceber que o equilíbrio — e aqui refiro-me ao PSD e ao PS — é sempre melhor que qualquer extremo. Os partidos do centro não se podem acomodar por serem moderados. Temos de perceber que a nossa democracia é ainda mais nova que ditadura.

MG: Quão importante é manter essa moderação perante uma pandemia?

EF: Em cenários de guerra, se é que podemos chamar a isto cenário de guerra, as pessoas estão à procura de um acompanhamento do estado. Porque realmente, não há resposta para algo assim. Mas a pandemia exige um trabalho de muita ponderação. As decisões políticas não podem ser tomadas quase de instante. As forças políticas mais populistas apontam problemas como a falta de equipamento médico, que existe, mas não têm respostas. O que essas forças políticas fazem é criar problemas. Não os resolvem

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Hugo Teixeira, 23 anos. Presidente da Juventude Socialista de Guimarães Mais Guimarães(MG): Os jovens ainda mantêm vivos os valores de Abril?

Hugo Teixeira (HT): Eu creio que os jovens da nossa geração, aqueles que têm consciência mais cívica, desperta ou mais ativa para estas questões, quer históricas ou relativas à democracia, mantêm vontade em celebrar o 25 de abril. Mas sinto que se perde um pouco a noção da importância da revolução. Creio os partidos e as juventudes partidárias têm um papel fundamental em relevar a data e tudo a que a ela se associa. Temos de continuar a celebrar a data.

MG: Dirias que é importante salientar, mais ainda, a liberdade conquistada perante a ascensão de movimentos extremistas em todo o mundo e em Portugal?

HT: As gerações mais jovens não viveram a ditadura. E há quem, por desconhecimento, menospreze tudo aquilo que outras pessoas viveram. Há quem hoje pense que esses valores, dados como adquiridos, são até exagerados e que se devem restringir. E, como é óbvio, isso vê-se na ascensão da extrema-direita e de políticas mais restritivas em diversos países. Vejo com desagrado o que tem acontecido em Portugal e na Europa, mas os partidos terão um papel essencial enquanto defensores da democracia.

MG: O lugar de alguns valores vai mudando de geração para geração? Ou mantêm-se?

HT: Os valores vão mudando, sim. Mas Abril trouxe, sobretudo, uma consciência aos cidadãos que muitos pensaram ser impossível atingir. Ter dignidade, ter liberdade nas suas opções. Mas isso vai-se refletindo nos novos desafios que vamos enfrentando. Por exemplo, na questão da eutanásia, permitimos liberdade de escolher. São valores que advieram com Abril. Ao longo destes anos de democracia, vamos sentido necessidade de defender novos valores e, por isso, defender Abril é todos os dias. É garantir dignidade, liberdade. E isso vai-se conquistando. Não terminou com a revolução.

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Inês Rodrigues, 18 anos. Membro da direção nacional da Juventude Comunista Portuguesa Mais Guimarães

(MG): Quão afastados estão os jovens do que se conquistou em abril de 1974?

Inês Rodrigues (IR): A distância histórica tem o seu peso: não vivemos o fascismo, não vivemos a revolução. Ainda assim, e temos de dizer a verdade, os valores de Abril ainda estão muito vivos graças à ação do PCP. As conquistas de abril estão muito vivas. A escola pública, o direito a estudar com qualidade. O SNS é uma grande conquista de abril, tem resistido e vindo a melhorar e hoje falamos tanto dele e da sua importância. E tantas mais coisas. Os jovens têm esta ideia de que o 25 de Abril é a liberdade, e é, mas trouxe mais para o nosso país. E estou-me a lembrar da música do Sérgio Godinho, “Liberdade”: “A paz, o pão, habitação, saúde, educação”. São valores que temos na nossa vida e não só pela evolução da sociedade, mas também pela revolução. Os jovens têm a grande missão de fortalecerem e assegurarem esses valores.

MG: E quais as novas lutas dos jovens?

IR: A principal luta que a juventude tem neste momento é o aprofundamento destas conquistas. Uma grande luta nossa é garantir que o Ensino Superior seja gratuito e para todos. Muitos têm pais que, no regime, não pensavam sequer em prosseguir estudos na universidade, não projetavam o futuro. E eu, tendo ensino obrigatório até ao 12º, consigo projetar com mais certezas o meu futuro. Mas quando não existirem propinas, quanto maior for a ação social escolar, maior será a igualdade social. Essa é a luta da juventude.

MG: Os movimentos extremistas têm conseguido juntar cada vez mais apoiantes. Porque é que isso acontece?

IR: A população em geral cai nesta falsa discussão de quem pertence ao sistema e que perpetua desigualdades, mas que, na esfera pública, apregoa o contrário. E, no fundo, estas pessoas têm reivindicações justas, mas olham para estes discursos e acreditam que é por aí o caminho. O nosso trabalho, como comunistas e democratas que lutam por uma sociedade mais justa, é fazer ver quem são esses políticos e o que defendem. E que não há regime mais velho que o capitalista. Vai aparecendo com outra face, com outros contornos, mas o que pretende é sempre o mesmo: explorar uns para que muitos poucos possam concentrar a riqueza. O caminho para acabar com a corrupção e alcançar a justiça social é lutar por uma sociedade mais justa, pela paz, solidariedade. E é isso que temos de perseguir para acabar com estas ideias, que não têm futuro.

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