PÂNICO NA BOMBA DE GASOLINA

Por José João Torrinha

Os movimentos de massas sempre me impressionaram. A tendência que o ser humano tem para ir atrás do seu semelhante, imitando-lhe acriticamente os passos e a forma como isso muitas vezes ganha proporções gigantescas é algo tão antigo como surpreendentemente atual.

Outro fenómeno interessante, intimamente ligado ao anterior, é o do pânico coletivo. Perante um perigo, seja ele real ou aparente, as pessoas tendem a agir de forma desproporcionada.

Os últimos dias em Portugal foram vividos sob o signo da chamada “crise dos combustíveis”. O fenómeno teve várias cambiantes interessantes de analisar. De como um país pode ficar refém de um pequeno grupo profissional. De como o sindicalismo de hoje se comporta de uma forma diferente daquele que conhecíamos há uns anos. Da forma como as autoridades reagiram ao problema. De como esta temática entrou na agenda política e qual a abordagem dos vários agentes. De como problemas destes se sentem e são respondidos a nível nacional e regional.

O sucedido fez-me lembrar aqueles exercícios que se fazem para lidar com catástrofes ou eventos perigosos inesperados. O conselho primordial é não se entrar em pânico e cada um seguir os conselhos de segurança de forma ordeira. Assim se salvam vidas, em contraste com as situações em que o “salve-se quem puder” entra em ação.

Mal comparado, foi o que aconteceu neste caso. Estes dias comentava com uns amigos que durante aqueles dias da crise, não tinha abastecido uma única vez. Que só o fiz já a situação estava normalizada e com a quantidade habitual. A resposta esperada estava na ponta da língua: “fizeste isso porque não precisaste”. E é absolutamente certa. De facto, só abasteci o que precisei e quando precisei. O problema é justamente esse. Quantas pessoas abasteceram sem precisarem? E quantas outras abasteceram muito mais combustível do que o que precisavam? Todos nós conhecemos histórias de pessoas que não só atestaram as suas viaturas como até encheram jerricãs. Até se falou de abastecimentos de centenas de litros de combustível.

Naturalmente que situações como estas são como as profecias que se realizam a si próprias. Pânico gera pânico e as reservas de combustível existentes são consumidas de forma muito mais rápida.

Num daqueles dias estava em casa e ouvia buzinar. Só no dia seguinte me disseram que a fila de carros ia do posto de abastecimento do campo da feira até meio da avenida D. João IV…

Que situações como estas nos façam aprender a todos. Na forma como individualmente reagimos às coisas. Na forma como o Estado central lida com estas situações. E na forma como os partidos políticos se posicionam face a elas. Porque se houve algo que ficou bem claro com esta mini crise foi justamente isso. Como se separou o trigo do joio. Quem reagiu com seriedade e quem não resistiu ao apelo do populismo.

E já agora, para acabar, mais uma. Não deixou de ser curioso a forma como muitos ditos “liberais” reagiram ao problema, reclamando do Estado uma solução para um conflito entre privados. Os nossos liberais de trazer por casa são muito assim: passam a vida a queixar-se do Estado controlador, mas à primeira rabanada de vento agarram-se ao Estado como se fosse o único porto seguro para resolver os seus problemas.

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