PARA A PRÓXIMA, EDGAR MORIN VOLTARÁ COM “MAIS TEMPO”

Sessão com o filósofo francês foi curta, mas Edgar Morin realçou a importância de evitar erros e ilusões. Recorde-se que o pensador contemporâneo sofreu uma tendinite aguda no pé esquerdo.

© CMG

Esperava-se uma boa conversa sobre as “complexidades e desafios do mundo contemporâneo” com Edgar Morin no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF). Contudo, a sessão não ultrapassou os 15 minutos e rapidamente encerrou. Inicialmente marcado para a última quarta-feira, o evento foi, entretanto, reagendado para esta quinta-feira. O filósofo e sociólogo francês de 98 anos sofreu uma tendinite aguda no pé esquerdo que exige descanso, por indicação médica.

Mas Edgar Morin não deixou de falar aos que atenderam à chamada, mesmo depois de adiada, para a conversa com o arquiteto da complexidade. Deixou no ar a possibilidade de, um dia, voltar a Guimarães com “mais tempo para partilhar sentimentos”. Morin disse que vem a Portugal já “há cerca de 60 anos”, tendo acompanhado de perto “os anos sombrios de Salazar” com políticos e intelectuais corajosos. “Foi com satisfação que conheci e participei na revolução de Abril”, acrescentou, indicando nomes maiores da democracia portuguesa, como Mário Soares.

Morin indicou já ter passado por Lisboa, Porto e Trás-os-Montes, mas nunca por Guimarães: “Ainda não tinha vindo a esta cidade que sei que é tão importante.” Tido como um dos maiores pensadores contemporâneos, o francês referiu ainda estar “emocionado” pelo facto de a sua forma de pensar, que quis “lançar e laborar” foi bem acolhida e integrada em Portugal. “O conceito da complexidade é algo que não nos pode tornar infalíveis, mas que pode ajudar a evitar erros e ilusão, que, por vezes, são as piores coisas que podem acontecer. Quando nos enganamos, perdemo-nos”, explicou. Morin transmite, ao longo da sua vasta obra e pesquisa epistemológica, a ideia de “complexidade” como a cola que une todas as esferas da atividade humana. Nascido em 1921, o filósofo foi membro do Partido Comunista Francês, do qual acabaria por ser expulso por discordar da orientação oficial; manifesta-se, assim, a proposta de Morin que incide no conceito de “totalidade aberta” e do “pensamento planetário”.

Francisco Teixeira, da ASMAV, realçou a importância de se receber “um dos grandes sábios do século XX e do século XXI” em Guimarães: “E como fazem os grandes sábios, apaixonou-se e fez da sua vida uma paixão e a sua luta por um tema que é um dos principais do século XX e, diria, do século XXI: a complexidade do mundo”, começou por dizer. Francisco Teixeira acrescentou ainda que é importante “compreender o mundo de uma forma complexa, abrindo porta à pluralidade, sem excluir povos ou diferenças em particular”. Depois, confessou: “Não pensava que poderia vir a conhecer Edgar Morin, é uma honra para Guimarães e para a ASMAV. É uma honra podermos estar com um homem que desde os anos 40 até setembro deste ano esteve sempre a escrever.”

Na extensa obra de Edgar Morin ganha destaque “O Método”, que consiste em seis volumes escritos ao longo de mais de 30 anos. “É uma lição imensa de perseverança e de luta face às complexidades crescentes do nosso mundo”, concluiu. Em representação da Câmara Municipal de Guimarães esteve o vereador do Urbanismo, Centro Histórico e Vistorias Administrativas, Fernando Seara de Sá, que disse estar presente não só em representação do município: “Interessa-me, esta conversa.”

No Porto, onde esteve na passada segunda-feira na apresentação do mais recente livro de Isabelle de Oliveira, “O Devir da Lusofonia”, Morin realçou o papel da lusofonia do mundo, apelando à recusa da hegemonia do inglês. O filósofo deixou elogios a Portugal, especialmente no que diz respeito à multiculturalidade: “É um país extraordinário. É um país atlântico que é, ao mesmo tempo, mediterrânico, é um país ibérico, mas profundamente ligado ao resto do planeta.”

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