Pedonalização do Centro Histórico? Assim, não!

Por Tiago Laranjeiro.

Tiago-Laranjeiro-low

Por Tiago LaranjeiroHá duas semanas, o Presidente da Câmara surpreendeu tudo e todos com um anúncio: a decisão da pedonalização de todo o Centro Histórico “está tomada” e avançará já em 2023. Esta decisão acabará com a circulação automóvel na Rua da Rainha D. Maria II, na parte superior do Largo do Toural, da Alameda de São Dâmaso e na Rua de Santo António. É uma autêntica revolução na gestão de cidade, tomada de supetão.

Não que o assunto não venha a ser falado desde a década de 1990. Mas, perante o seu impacto e a falta de criação de condições e respostas às necessidades dos cidadãos, foi sendo sucessivamente adiada.

O que surpreende agora é o seu anúncio abruto. Afinal, o que de substantivo mudou nos últimos tempos para motivar esta decisão? Decisão que é autocrática, na medida em que não foi precedida de um diálogo com os parceiros no terreno, da Junta de Freguesia a entidades representativas dos moradores e dos comerciantes – como é notório pela sua sonora reação, em particular da ACTG.

Mas, analisemos as tais condições.

A pedonalização do Centro Histórico retira efetivamente capacidade de mobilidade a quem lá vive. O Centro Histórico tem poucos moradores e está envelhecido, tendo hoje uma prevalência muito significativa de alojamento não permanente. Restringir ainda mais a circulação automóvel afeta quem tem já mobilidade reduzida, como é o caso dos mais idosos, e não potencia a fixação de famílias jovens, com crianças, por causar mais constrangimentos e desconfortos. A solução dos parques de estacionamento na periferia do Centro Histórico não tem conseguido resolver o problema, por não ter a proximidade e capacidade necessárias. Faltam estacionamento de proximidade, soluções de mobilidade e respostas de transportes públicos adequados para que possamos ter um Centro Histórico vivido, e não musealizado.

Depois, há um argumento que tenho visto ser pouco debatido: a segurança. Tem havido nos últimos anos um crescendo no sentimento de insegurança no Centro Histórico – que não sei se baseado ou não em números ou ocorrências concretas. Uma maior restrição da circulação automóvel diminui ainda mais o número de pessoas a circularem no Centro – o que contribui para um sentimento de desamparo e de insegurança, principalmente à noite.

Por fim, temos o tema da economia local. Que impacto é que uma medida destas terá na economia do Centro Histórico?

Por um lado, é possível que beneficie o turismo. Que, sendo fundamental para a economia local, aprendemos com a pandemia que não devemos criar uma dependência excessiva de um segmento de atividade, principalmente por se tratar de uma atividade ainda marcada por uma forte sazonalidade. E com os problemas que persistem em Guimarães: continuamos a ter um turismo fortemente diurno, que maioritariamente não janta nem pernoita na cidade. É mais que questionável que a pedonalização, sem ações prévias nem números que demonstrem uma alteração desta tendência sejam suficientes para a justificar.

E para os locais? O Centro Histórico tem atratividade suficiente para garantir a sua afluência? Continuam a faltar serviços e comércio que sirvam de atrativo para os Vimaranenses. A Loja do Cidadão, por exemplo, foi prometida há anos e teima em não sair do papel. E a própria ACTG insurgiu-se com receio do impacto que terá na diminuição da procura.

Não nos esqueçamos do exemplo de Braga: a pedonalização do Centro Histórico de Braga levou a mais de uma década de apatia naquela zona da cidade. Quem há dez anos caminhasse à noite pelo centro de Braga via um autêntico deserto, sem pessoas a circular, realidade que demorou muito a alterar. Queremos correr esse risco em Guimarães?

PUBLICIDADE
Arcol

NOTÍCIAS RELACIONADAS