PELA CIDADE

Por Wladimir Brito,

Professor de Direito da Universidade do Minho

A crise no PSD veio animar o ambiente político que estava muito concentrado no Presidente-comentador e nas sondagens que apontam para a vitória eleitoral do PS.

Essa crise começou com a saída de Santana Lopes, acentuou-se com a criação do Aliança e com reconhecimento da fraca oposição do PSD com reflexo nas sondagens relativas às eleições que se avizinham. Até aí não havia crise, mas sim jogos estratégicos de posicionamento para a tomada de poder.

Pese embora tudo tenha sido feito pelo PSD e por Belém para que a saída de Santana Lopes e a criação do Aliança parecessem à opinião pública como algo normal na vida democrática, a verdade é esses dois factos não tinham entrado na equação de tomada de poder pelo grupo de Belém que comanda a oposição a Rio e que sempre o aceitou como um líder de transição.

Para esse grupo a luta ao longo desta legislatura deveria centrar-se no desgaste e na crescente fragilização de Rio, que começou com a (falhada) revolta dos Deputados e com a intervenção semanal do núncio de Belém, Marques Mendes. Os seus candidatos, – Montenegro e/ou Carlos Moedas –, que são os do Presidente-comentador, ficariam guardados para agirem depois da previsível derrota eleitoral do PSD e, com ela, a do Rio. Daí que, nas últimas eleições, Montenegro, estrategicamente, não se tenha candidatado, limitando-se a informar que seria candidato, noutro momento, ou seja, depois das legislativas.

Mas, falhada a revolta dos Deputados, consciente da fraca intensidade da oposição feita por Rio, confrontado com as sondagens que apontam para resultados abaixo do aceitável pelo grupo e a inexistência de revolta das bases do PSD contra Rio, aberta a época da caça aos lugares nas listas eleitorais, surpreendido pela inesperada dinâmica política desencadeada por Santana Lopes e a criação do “Aliança”, e constatando a ampla aceitação dos resultados da governação PS, o nervosismo apodera-se do grupo de Belém cuja estratégia não tinha sido concebida para lidar com todas essas situações, em especial a previsível perda de eleitores de direita em benefício do PS e, sem dúvidas, do “Aliança”.

A conjugação desses factores parece ter precipitado o “golpe das Caldas” protagonizado por Montenegro, que, ou por não resistir a “tanto sofrimento”, decidiu dar o golpe sem ouvir Belém, o que nos parece pouco credível, ou deste recebeu instruções para avançar, apenas com o objectivo de testar a sua aceitação, abrir espaço para negociação dos nomes para as listas e marcar terreno para si ou para outro na luta futura para a tomada de poder.

Fracassando o golpe, Montenegro fica queimado, mas o grupo de Belém continuará a sua tarefa de desgaste do Rio até as eleições, mas agora de forma mais subtil, com nova estratégia e novos tempos para a sua execução.

E se dúvidas houvesse sobre a participação do Presidente nesta estratégia, ela ficou afastada quando ele, no início da crise declara que não interferiria nas questões partidárias, mas, logo de seguida, percebendo as reacções pouco favoráveis ao “golpe das Caldas”, pede, sublinho pede, audiência a Rio e aceita receber o candidato golpista. Belém revela assim que participa directamente no processo de “destronização” em curso.
Oposição a Rio, começamos a acreditar, tem o seu quartel-general e comando-chefe em Belém e, pela atitude firme de Rio, que conhece bem Marcelo, penso que ele já se apercebeu disso.

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