PELA CIDADE

por WLADIMIR BRITO
Professor de Direito na Universidade do Minho

 

    1. Nos anos 50 do século passado, a UNESCO, preocupada com o fenómeno racista, publicou um conjunto de brochuras com vista a combater preconceitos racistas, tendo nessa altura Claude Levy-Strauss, antropólogo e académico francês, escrito estudo científico, “Race et Histoire”, onde explicava que nada permite afirmar a superioridade ou inferioridade intelectual de uma raça relativamente a outra, defendendo ainda que todos os grupos étnicos ofereceram contribuições específicas para o património comum da humanidade.

      Entre nós teorias como a do lusotropicalismo produzida pelo académico brasileiro Gilberto Freire em Casa Grande & Senzala e O Mundo que o Português Criou, contribuíam para difundir a ideia de que não havia racismo no império colonial português e para a construção do mito do “português suave”, como se o colonialismo, a escravatura e a ideologia racista existentes na Europa não tivessem tido consequências em Portugal. Mas, a realidade aí existente desmentia a teoria e o mito.

      Na verdade, há racismo em Portugal e, consequentemente, em Guimarães. Negar essa realidade impede que dela se tenha consciência, pelo que, para quem a nega, a crítica e o combate ao racismo parecem ser injustificados e provocadores. Durante muitos anos, a visibilidade do racismo foi ocultada por mitos e chavões que nos levavam e levam a pensar que os portugueses (e outros europeus) não são racistas.

      Tornava-se assim necessário desocultar o ocultado pelo ecrã da ideologia lusotropicalista e do mito do “português suave”, o racismo endémico. Esta foi a tarefa que Marega cumpriu com o seu gesto, dando completa visibilidade que era preciso dar a esse fenómeno, para que dele se tomasse consciência plena. E fez isso de uma forma inteligente, agindo no quadro de um desporto de massas amplamente visto e vivido, onde, com o corajoso e lúcido acto de abandonar o campo, revelou que o racismo é intolerável e tem de ser combatido.

      É claro que nem Marega, nem eu, nem as pessoas que combatem o racismo pensam que todos os portugueses e todos os vimaranenses são racistas. Não. O que queremos dizer é que há portugueses racistas, há vimaranenses racistas, que envergonham Portugal e Guimarães. Por isso, temos de os combater, mesmo que seja para os levar a tomar consciência de que as suas práticas são racistas, logo inaceitáveis comunitariamente. Trata-se de um combate cultural contra a normalização de condutas e linguagens racistas – mesmo que simbólicas – que impede a sociedade de perceber e de reconhecer a existência desse fenómeno, em especial quando ocorre nos campos de football. É essa normalização que permite que se confunda xenofobia e racismo com bairrismo, como vi escrito num patético cartaz colocado na grade do Toural.

      Os insultos dirigidos ao Marega não são manifestações de bairrismo, não revelam amor, dedicação e defesa do club ou da Cidade, mas sim o mais vil e ignóbil racismo praticado por aqueles que entendem os clubs, que dizem apoiar, não como instituições que promovem e praticam o desporto e a sã competição desportiva, mas sim como instrumento de insultos e ódio racial. Estes racistas só se envergonham a si próprios e àqueles que os apoiam, com justificações reveladoras de racismo endémico.

      O racismo existe e tem de ser quotidianamente combatido não só pela via penal, mas essencialmente pela via cultural. Temos de desracializar as mentes e isto só é possível pela via da cultura. Aproveitemos para o efeito a lição de Lévy-Strauss para tema desse combate, a que a Cidade e o Vitória devem associar-se.

       

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