Pela Cidade

por WLADIMIR BRITO
Professor de Direito na Universidade do Minho

1. A novidade do modelo da campanha eleitoral para as eleições Presidenciais centra-se essencialmente na forte redução dos comícios, da campanha de rua e do contacto pessoal do(a)s candidatos(as) com as populações, que conferem dimensão humana à campanha e revelam a personalidade política e pessoal do(a) candidato(a).
Com efeito, os comícios e a rua são a proximidade política e afectiva da campanha e revelam a personalidade dos candidatos. Por seu lado, a natureza tecnológica – a televisão, a rádio e as redes socias –, e a digitalização da campanha, distancia-nos do(a) candidato(a), levando-nos a representá–los como seres de nós separados por um ecrã e a percecioná-los como actores de cinema ou de TV, de quem gostamos ou não. Não há dimensão afectiva, não há calor humano.

2. Nestas eleições, entre outras, dois aspectos prenderam a minha atenção pelo facto de ambos, com distintos objectivos, é certo, terem como recurso estratégico o uso de um certo tipo de linguagem e de acção comunicativa para produção e difusão da mensagem e da imagem política do candidato. Exemplifiquemos sumariamente.

3. Marcelo Rebelo de Sousa desenvolve essa estratégia comunicacional com recurso a uma linguagem condicionadora da linguagem e da reacção comunicacional dos seus adversários.
Na verdade, nos debates, Marcelo começa por tratar o candidato adversário pela sua profissão – sr.ª Embaixadora – ou pelo seu cargo sr.(a) Deputado(a), e raramente por candidato. Com essa linguagem, leva o adversário tratá-lo por sr. Presidente, logo, a reconhece-lo como o Presidente que é e que continuará a ser. Desvaloriza, assim, o debate, transformando-o numa “conversa” com o Presidente, e só se assume como candidato quando algo põe em causa o seu mandato ou o toca pessoalmente.
Nas campanhas de rua ou nas entrevistas ele age e responde como Presidente, raramente como candidato. Marcelo é assim percepcionado como o Presidente que participa nos debates; raramen- te como o candidato.
A estratégia é boa e quase todos adversários caíram na esparrela. Revejam os debates e apreciem a estratégia.

4. André Ventura, coriféu da extrema-direita malcriada, grosseira e político-sociologicamente perigosa, tem como objectivo ocupar a comunicação social para gerar a percepção de que é o único que efectivamente combate os “malandros-corruptos” que ocupam o poder e não se preocupam com o povo. A estratégia é: falem de mim e do CHEGA, mesmo que seja para dizer mal, mas falem todos os dias e em todos os meios de comunicação. Para ser percepcionado como o único partido que efectivamente combate o “poder corrupto” e o “sistema”, o CHEGA necessita de esvaziar o debate da sua dimensão ideológica e de o factualizar e personalizar, no seu líder ou nos seus adversários. Para tanto, na sua acção comunicacional, usa uma linguagem rudimentar e grosseira dirigida à camada da população que nela se reconhece e que a percepciona como “a linguagem do povo”.
Os partidos democráticos e os mídia não o têm sabido combater ideologicamente. Têm caído nesse seu jogo de esvaziamento do debate da sua dimensão político-ideológica e de ocupação dos mídia, acabando por debater casos em vez de causas e ideologia, malcriação e provocação, em vez pedagogia democrática.
Por isso, o CHEGA e o seu líder não estão preocupados com críticas, pois sabem que com elas ampliam a sua mensagem e alcançam os seus objectivos. Essa é a sua estratégia.

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