PENSAR A CIDADE

por RUI ARMINDO FREITAS
Economista

Nas últimas semanas tem-se adensado a discussão sobre a nossa cidade. Nos mais diversos órgãos da comunicação social e na cada vez mais importante ágora dos dias de hoje, Facebook, os mais diversos intervenientes, quer políticos, quer conhecidos pensadores livres das coisas da nossa pólis, têm-se multiplicado em opiniões sobre a ausência de um plano para Guimarães das próximas décadas. Uns chamam a atenção para exemplos de construções que ferem, em seu entender, a integridade dos valores da cidade e da sua história, outros entendendo que não há consistência nas propostas surgidas ultimamente de equipamentos públicos, que parecem ser “semeados” aleatoriamente e cujo único critério parece ser o de o espaço livre pertencer à autarquia, não interessando sequer se tem lógica instalar um Campus da Justiça para lá do parque da cidade, ou não. Outros, técnicos eméritos da autarquia questionam-se sobre que fruição devem ter os espaços mais nobres da cidade, temendo a “Disneyficação” do centro histórico, questionando a qualidade, pertinência e frequência do programa que lá vai a palco. Contudo, sejam mais afectos ao poder vigente, ou menos afectos ao poder vigente, sejam políticos conhecidos da “nossa praça” ou apenas livres pensadores, numa coisa todos estão de acordo, é preciso discutir a cidade.

Para isso, caro leitor, gostaria também eu, de dar o meu contributo com uma rápida análise do que tem sido a evolução da cidade. Assim, cumpre referir, que Guimarães, até à elevação a cidade em 1853, não tem nenhum plano relevante, tendo tido um crescimento desordenado, ou com um ordenamento aleatório até ao primeiro plano urbanístico, de 1867. As grandes mudanças aconteceriam mais tarde com Luís de Pina em 1925. Ao longo do século XX tivemos ainda em 1938 e 1955 Marques da Silva e mais tarde a sua filha, Maria José Marques da Silva com Moreira da Silva, a projectarem, entre outras vias, o que hoje o leitor conhece como entrada de Guimarães! Sim, a rotunda onde se encontra uma conhecida superfície comercial foi projectada nos anos 50…. Arménio Losa em 60/70 também pensou Guimarães. Até que por fim, o grande mestre, que ficará ligado para sempre ao Património Mundial, Fernando Távora, desenhou a expansão da cidade em 1982 e 1992, desde o traçado da via rápida, ao traçado da circular.

Depois disto, chegou a era dos PDMs, que vieram ordenar e não, como erradamente se entende, dar a visão estratégica de futuro para uma cidade ou concelho. Mas a grande questão não tem que ver com arquitectos, engenheiros, urbanistas, a grande questão é política! Nenhum dos citados teria contribuído, se não lhes tivesse sido encomendada uma certa visão de cidade, e essa diz respeito a quem nos governa. Infelizmente, o poder vigente há muito que se escuda nos técnicos para sacudir a água do capote e nada dizer sobre aquilo que quer para a malha urbana de Guimarães…Não se conhece visão sobre as vias, sobre a mobilidade, sobre os tipos de fruição do espaço, e arrastam sempre a questão para o domínio técnico…Aí são os técnicos que encontram soluções, mais ou menos correctas, mas sem um programa, sem uma visão, quase como encomendar uma casa a um arquitecto e nem sequer lhe dizer quantos quartos quer que ela tenha, nem quantas pessoas lá irão habitar. As oposições caem sucessivamente no erro de atenderem à discussão técnica, com boa vontade, mas com menos recursos para a discussão. E assim, todos vamos discutindo nos “cafés” o que queremos para Guimarães, todos, menos quem o deve fazer. É hora de pensar Guimarães.

 

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