Prémio Literário Vila de São Torcato distinguiu alunos no Dia da Língua Portuguesa
A vila de São Torcato voltou a celebrar a língua portuguesa com a entrega dos prémios da sexta edição do Prémio Literário Vila de São Torcato, iniciativa promovida pela Junta de Freguesia em parceria com o Agrupamento de Escolas Vale de São Torcato.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
A cerimónia decorreu na tarde de terça-feira, 05 de maio, integrada nas comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, distinguindo alunos do 3.º ciclo que aceitaram o desafio de escrever a partir do mote inspirado em José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
O concurso voltou a mobilizar a comunidade escolar e confirmou a crescente adesão dos jovens à escrita criativa. Nesta edição foram submetidos cerca de 60 textos, entre poesia e prosa, num exercício de reflexão que levou os alunos a olhar para o mundo, e para si próprios, de forma crítica, sensível e profundamente humana.
Para Antero Freitas, o prémio literário representa muito mais do que uma competição escolar. “Ainda mais quando nos tentamos afirmar, diariamente, como vila de cultura. Transmitir essa cultura e desafiar os alunos a participarem neste tipo de iniciativas, que já conta com a sexta edição, faz também com que São Torcato seja promovido naturalmente”, afirmou.
O autarca destacou o papel central dos alunos no sucesso do projeto e confessou ter ficado surpreendido com a qualidade dos trabalhos apresentados. “Já é habitual termos grandes textos, mas este ano tinham uma qualidade muito superior”, sublinhou, acrescentando que o principal objetivo passa por “cultivar o uso da língua portuguesa” e incentivar os jovens a continuarem a escrever “independentemente de qualquer prémio”.

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Os vencedores receberam prémios para utilização no comércio tradicional local, numa opção que, segundo Antero Freitas, procura também envolver a comunidade. “É uma forma de valorizar não só o comércio local, como também fazer a escola sair das suas fronteiras e envolver toda a comunidade. Isso é importante”, referiu.
No primeiro ano enquanto presidente da Junta envolvido diretamente na iniciativa, Antero Freitas garantiu que o projeto é para continuar e crescer. “É um projeto para manter e, se possível, melhorar e alargar. Gostávamos que pudesse contagiar outras escolas e até todo o concelho para a prática e valorização da língua portuguesa”, afirmou.
Resultados surpreenderam os docentes
A professora Margarida Vila Nova, uma das dinamizadoras da iniciativa, explicou que o tema deste ano constituiu um enorme desafio para os alunos, precisamente pela profundidade da frase escolhida. Ainda assim, os resultados acabaram por surpreender os docentes.
“Eles começaram a olhar para o mundo à maneira deles e trouxeram-nos textos muito fortes, sobre bullying, guerra, droga, ódio, poluição, mas também sobre amor, paixão e identidade”, contou. Segundo a professora, o trabalho desenvolvido foi muito além da aprendizagem técnica da escrita. “O reparar exige outro sentimento: importar-se com aquilo que se vê, interpretar e pensar no que podemos fazer para transformar o mundo.”

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Margarida Vila Nova destacou ainda a maturidade revelada pelos participantes. “Havia nos textos uma angústia existencial muito intensa para jovens destas idades. O texto vencedor emocionou-me profundamente porque parecia um diálogo interior, uma luta contra aquela voz que nos diz que não somos capazes”, revelou.
A docente acredita que iniciativas deste género ajudam os jovens a desenvolver não apenas competências linguísticas, mas também pensamento crítico, sensibilidade e identidade pessoal. “A escrita criativa permite-lhes trazer cá para fora aquilo que são, os seus medos, sonhos, dúvidas e ambições. Eles começam a perceber que podem arriscar, criar e transformar”, disse.
A professora revelou ainda que alguns antigos participantes continuaram a escrever após o concurso, desenvolvendo livros de poemas e textos pessoais. “Há alunos que descobriram aqui uma vocação. Isso é talvez o maior ganho deste projeto”, salientou.
“Neste agrupamento é muito fácil ser diretor”, diz José Alberto Freitas
Também José Alberto Freitas enalteceu o envolvimento da comunidade educativa e a qualidade humana do agrupamento. “Neste agrupamento é muito fácil ser diretor, porque existe uma massa humana comprometida com a causa da educação e do ensino”, afirmou.
Associado ao projeto desde a sua criação, há sete anos, o diretor considera que o prémio se tornou já uma referência local no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa. “É um tributo à nossa língua, aos escritores e poetas portugueses, e os alunos continuam a surpreender-nos pela potencialidade que revelam na escrita”, destacou.

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José Alberto Freitas admite agora novos desafios para o futuro da iniciativa, nomeadamente a abertura à comunidade e a possibilidade de projetar o concurso para outras escolas do concelho. Entre as ideias está também a criação de uma publicação com os melhores textos apresentados ao longo das edições.
“Queremos perceber até que ponto conseguimos levar este projeto para além da vila. Seria muito interessante envolver antigos alunos e a comunidade em geral. Voltar à escola é também voltar a uma parte importante da nossa vida”, concluiu.
Filipe Santos, escritor, esteve também presente na cerimónia de entrega dos prémios, valorizando os textos apresentados a concurso. Na sua intervenção, manifestou preocupação com o excessivo uso de anglicismos no dia a dia dos alunos, bem como a proposta de exclusão de José Saramago, nobel da literatura, do programa educativo.





